As dores emocionais dos jovens esportistas na pandemia

Todos nós estamos passando por algum nível de dificuldade em nossa saúde mental nesse momento de pandemia do coronavírus. Não poderia ser diferente em tempos de catástrofes humanitárias, é natural que as pessoas estejam em algum grau afetadas.
Pensando nos jovens esportistas tenho absoluta certeza que a grande maioria deles sentem muitas dificuldades nesses aspectos. Dificilmente alguém não apresentou sinais, sintomas ou respostas de alguma alteração na qualidade da saúde mental nesse momento.

As dores emocionais dos jovens esportistas na pandemia

Os atletas de categoria de base e amadores estão sendo os mais afetados em decorrência do isolamento e restrições sociais devido a pandemia. A grande maioria das competições desses públicos não aconteceram ano passado, estão suspensas ou dificilmente ocorrerão em 2021. Equipes foram desfeitas por falta de patrocínio, investimentos e perspectivas. Infelizmente, as expectativas para esse ano são similares ou até piores do que no ano de 2020. A dura realidade do coronavírus no país é gravíssima. A vacinação em massa, até o momento, ainda é um sonho distante. A vacinação de crianças e adolescentes ainda é utopia. Triste realidade.


Adolescência e vulnerabilidade.

Outras questões de vulnerabilidades sociais que já existiam, também estão sendo expostas nesse momento. Por exemplo, quando o ambiente familiar não é protetivo? A residência é insalubre como muitas casas em comunidade carentes? Ou quando a relação entre os pais ou membros da família é violenta?

Quando o esporte aparentemente é o único recurso para ascensão social? Ou o jovem atleta é o arrimo de família e não sabe até quando continuará recebendo? Ou até aquele que perdeu a ajuda de custo ou bolsa atleta e teve de abandonar o esporte para trabalhar na informalidade? São necessidades muito complexas mas que acabam aparecendo num grupo de jovens atletas de origens sociais e regionais tão diversas em nosso país. Tudo isso, podem ser gatilhos para que haja prejuízo ainda maiores na saúde mental, no autocuidado ou no isolamento dessa população.


Reforçar o poder da comunicação dos sentimentos negativos entre os jovens e com adultos de confiança é algo necessário nessa ocasião. É importante despertar o espírito comunitário e solidário mesmo em distancia. Valorizar as boas amizades e companheirismo para evitar a solidão pode ser um remédio para quem se sente entediado. Nesse sentido conversar ao telefone e vídeo são mais efetivos do que teclar em aplicativos de mensagens.

Desmotivação.


Os jovens atletas estão cansados de treinos e atividades online. Mesmo sendo importantíssimo no momento. O único recurso para praticamente a maioria de equipes e clubes em todo o território nacional. Tenho percebido isso onde atuo e com os atletas com que trabalho. A motivação dessas pessoas, em geral, está baixa. Na adolescência o contato com o ‘mundo fora de casa’ é fundamental para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. O grupo de amigos é quase tão importante quanto a família, assim como o ambiente escolar.

Para quem treina, o distanciamento presencial do contato cotidiano com os colegas de equipe, com as atividades esportivas nunca fizeram tanta falta. E nunca trouxeram tanta dor emocional, insatisfação, tanta tristeza, sentimentos negativos e desesperança. Alguns jovens estão desistindo do esporte. Desistindo de seus sonhos.

As dores emocionais dos jovens esportistas na pandemia

Principais sintomas, sinais e comportamentos disfuncionais.


Devido a essa crise humanitária, estão aumentando os casos de ansiedade, as crises de pânico, os níveis de estresse, os episódios depressivos e as ideações suicidas (como automutilações, por exemplo). Esses sintomas podem ocorrer em atletas de todas as idades e classes sociais. A incontrolabilidade e imprevisibilidade do momento, certamente, é um agravante.

Com relação ao estresse, é sabido que uma de suas consequências em longo prazo é a queda na imunidade, ou seja, isso pode ser um problema potencial nesse momento.

Sinais mais leves como: irritabilidade e agressividade. Perda ou aumento de peso também são fatores que tem ocorrido nesse momento entre os jovens atletas. Cada pessoa responderá as demandas do estresse de maneiras diferentes.

Outro fator agravante pode ser o medo do contágio, da contaminação a si ou seus entes queridos. Com isso pode ocorrer possíveis fobias sociais, comportamentos obsessivos por limpeza, por exemplo. Ouvi relatos de atletas que estiveram com a covid que se sentiram culpados por contaminar seus pais. Mesmo no caso em que não houve gravidade da doença o remorso permanece pela possibilidade de sequelas futuras mais graves.

Tem sido frequente atletas terem logo após o contagio da doença alterações cardíacas de leve a moderada que impossibilitam qualquer atividade física, mesmo supervisionada, acarretando arritmia no coração. Tive conhecimento de casos similares com jovens atletas de 13, 14, 15 e 18 anos.

Alguns comportamentos de risco podem influenciar negativamente e acarretar consequências mais graves. É o caso do consumo exagerado de bebidas alcoólicas, a desobediência as regras de convívio, as aglomerações em festas e até em competições esportivas clandestinas. Burlar as regras, comportamento típico dessa fase da vida, hoje é muito arriscado e deve ser abertamente conversado entre responsáveis e educadores para ser evitado.

A fadiga por telas.


Estudos mostram que a hiperconectividade é ruim. Desfoca, cansa, gasta energia física e mental, podendo potencializar a ansiedade. Nosso cérebro funciona no modo analógico. Ao contrário do que parece, nosso cérebro não é multitarefa, ele alterna tarefas, quando mais nos focamos em uma atividade melhor o nosso desempenho. Mas tempo demais conectados a internet, ao celular e computadores não é natural. Porém, como proceder? Já que atualmente as demandas escolares e as atividades esportivas só são possíveis devido a esse tipo de tecnologia. O tempo de tela tem contribuído negativamente na saúde mental. Somos seres sociais e que necessitamos de contato físico e afetividade.

Por mais importantes recursos que as tecnologias podem nos proporcionar, nada substitui a interação humana.

“Os psicólogos prestam cada vez mais atenção aos efeitos desta mudança de hábitos em milhões de trabalhadores, acelerada pela emergência sanitária do coronavírus. Um estudo publicado pelo laboratório de interação humana da Universidade de Stanford (Estados Unidos) batiza o fenômeno como “fadiga do Zoom” e adverte para o estresse adicional causado pelo mosaico de rostos com os quais interagimos tão de perto, ancorados a uma cadeira, com dificuldades para captar a linguagem não verbal e ainda por cima com nossa face exposta ao escrutínio dos demais e à nossa própria autoavaliação na tela.” (Jornal El País).

Uma dica importante é se desconectar das telas, redes sociais, após as atividades laborais (escolares e esportivas). Quem puder leia livros ou revistas físicas. Brinque com jogos (tabuleiros, xadrez, cartas) com as pessoas que moram com você. Se possível caminhar ao ar livre, ir ao um parque, ter contato com a natureza. Tomando os cuidados que o isolamento necessita (distanciamento, uso de mascara, álcool em gel, etc). Isso pode ser extremante importante para o descanso físico e mental. Para recuperação da energia.

As dores emocionais dos jovens esportistas na pandemia


Técnicas psicológicas para o desenvolvimento emocional.

Não se dá ainda o mesmo valor ao treino psicológico com relação as outras áreas da preparação esportiva. Esse é um erro grotesco que pode arruinar uma carreira.
A aceitação e tolerância a frustração serão habilidades psicológicas a serem desenvolvidas em tempos tão adversos. Estar focado no momento presente nunca foi tão importante. Viver um dia de cada vez tem sido fundamental nesse período. Portanto, algumas técnicas psicológicas são tão importantes:

Autoconhecimento:

Desenvolver as habilidades para o autoconhecimento é um processo pessoal que leva tempo e disposição. Não é uma necessariamente uma técnica especifica. De fato não existe receita de bolo compartilhada em larga escala. Cada pessoa ‘funciona’ de um jeito, se comporta de determinadas maneiras, sentem e respondem de formas diferentes. O ser humano é muito complexo para se enquadrar em estratégias prontas para serem replicadas a torto e a direto.
Tenho certeza absoluta que qualquer pessoa que desenvolve o autoconhecimento irá sofrer menos e será mais feliz em todos os aspectos de sua vida.


Treino mental:

As técnicas de treinamento mental devem ser utilizadas pelos atletas para manter o cérebro ativo e condicionado nas rotinas psicológicas de treinamento. Nesse sentido, as práticas de visualização ajudam no desempenho físico, tático e técnico.

A grande maioria dos esportistas não está conseguindo treinar adequadamente.  O treino mental tem sido uma ferramenta fundamental para auxiliar na preparação psicológica de atletas e também de treinadores independentemente da idade.

A maioria dos atletas utiliza de visualizações intuitivamente. Alguns não entendem o quanto podem se beneficiar dessas práticas rotineiramente se forem incorporadas aos treinos e aos momentos de descanso. São técnicas ainda subutilizadas e até desprezadas por puro desconhecimento.

Podemos imaginar situações de sucesso de empoderamento, de atitudes de confiança. É possível imaginar situações negativas durante uma competição e como sair desses momentos. O treinamento mental não visa só melhorar o desempenho esportivo ele pode estar a serviço do desenvolvimento da saúde mental e emocional de quem o pratica.

Meditações

As técnicas meditativas podem ser consideradas mistas, ou seja, fisiológicas (controle respiratório) e mentais (controle de atenção).

A Mindfulness (atenção plena ou “atenção cuidadosa”), é uma das práticas meditativas mais pesquisadas na atualidade e mais utilizadas em ambientes esportivos. É uma abordagem científica que busca desenvolver o “foco no momento presente”, ou de forma mais ampla “viver o aqui agora”. Em outras palavras para o ambiente esportivo é estar totalmente presente e imerso seja um treino ou um jogo.

Além disso, as técnicas meditativas podem ajudar a relaxar, a acalmar e desintoxicar a cabeça cheia de estímulos. Praticar poucos minutos por dia já é suficiente para auxiliar na saúde emocional.

Flexibilidade psicológica:


Os atletas estão sendo afetados em todos os níveis de sua preparação. Do ponto de vista psicológico manter a resiliência em tempos de incertezas é muito complicado. Porém, é uma habilidade que pode ser aprendida. A flexibilidade psicológica (saber lidar com imprevistos e contratempos), praticamente, todo atleta ao longo de sua carreira passou por momentos em que foi necessário ultrapassar diversas adversidades. Esse momento é mais um, provavelmente, um dos mais difíceis, pela complexidade que se apresenta. O isolamento é uma questão de preservação da vida e contenção de perigos. Não é possível controlar a natureza e nem o comportamento das outras pessoas. Portanto, desenvolver a flexibilidade psicológica pode ajudar no autocontrole e no autocuidado.

Concluindo.

Alguns jovens se sentem isolados emocionalmente, sem dialogo com seus pares ou com seus cuidadores. Muitos adolescentes se fecharam em suas realidades. Ouvi de alguns que não se sentem a vontade para comunicar suas dores. Pois, acreditam que será mais um motivo para preocupação aos seus familiares em momento tão difícil. Outros acham que seriam egoístas se falar de emoções ou sentimentos quando a família está passando por sérias necessidades. Essas questões são importantes de serem escutadas, não podemos minimizá-las. Por essas outras razões, ficou escancarado a necessidade da Psicologia do Esporte no ambiente esportivo.

Quem desacreditava do valor e potencial desse profissional talvez esteja arrependido nesse momento. As pessoas precisam comunicar suas angustias e de quem as acolha e dê sentido as mesmas.


Referências:

https://brasil.elpais.com/sociedad/2021-03-03/por-que-as-reunioes-pelo-zoom-cansam-mais-que-as-presenciais.html

https://tmb.apaopen.org/pub/nonverbal-overload/release/1

https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/aop318.pdf

https://appliedsportpsych.org/blog/2020/05/olympic-and-paralympic-athletes-are-adjusting-with-the-help-of-sport-psychology-during-the-coronavirus-outbreak/

https://open.spotify.com/episode/1HIgprQ7zxwGEoadJ6CsM8?si=JjHxeVSZTWK2_volWebjlg&dl_branch=1

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Abraços..

Até !!!




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