Autoconfiança: entenda como isso afeta o desempenho esportivo

Me arrisco a dizer que a autoconfiança é a competência psicológica fundamental para o desenvolvimento atlético, principalmente, para as crianças e jovens. Uma pessoa confiante, pode se motivar mais facilmente,  pode obter maior controle emocional e alcançar resultados favoráveis na hora da competição, pode aprender com mais facilidade a se concentrar, pode tolerar melhor as frustrações.  A autoconfiança contribui para o equilíbrio de variáveis como o estresse e a ansiedade, muito comuns no esporte.

A autoconfiança é uma crença pessoal de que se pode realizar, com sucesso, uma determinada tarefa (WEINBERG e GOULD, 2001). Pode-se dizer que a autoconfiança é uma expectativa, um pensamento subjetivo do indivíduo acerca da realização de tarefas de modo geral ou específico.

Ninguém é 100% confiante em todos os papéis em que exerce na vida. A autoconfiança pode ser desenvolvida por qualquer pessoa, algumas já aprenderam a ser confiantes naturalmente através de suas experiências. A autoconfiança é um componente imprescindível para qualquer atletas independentemente da idade. Nas categorias de base, a autoconfiança tem uma função ainda mais importante pois os jovens estão em desenvolvimento e experiências positivas no ambiente esportivo auxiliarão na maturidade emocional e psicológica desses indivíduos.

Pouca confiança pode ser fatal para um jovem atleta. Talento não é tudo, ajuda bastante, porém, a confiança é reforçadora para muitas conquistas e aprendizagens no esporte. Por exemplo, frases como, ‘não tenho valor’, ‘ não consigo perceber que sou bom’, tem total relação com a autoestima e a autoimagem negativas. Já ouvi relatos de jovens dizendo: ‘ não posso me achar um atleta bom, porque isso é soberba‘, quando, a soberba é sentir-se o máximo e menosprezar as pessoas. Ter autoconfiança é compreender que temos habilidades, qualidades, características positivas e também humildade para reconhecer os aspectos a ser melhorados.

Por que alguns atletas se cobram em demasia?

Na minha experiência com jovens atletas, 80% deles tinham pouca confiança em si e a grande maioria  são pressionados interna ou externamente.

As autocobranças no esporte são padrões de comportamentos muito recorrentes. Esses excessos são prejudiciais ao desenvolvimento esportivo e humano, é algo prejudicial nos adultos imagina nos jovens que ainda estão em plena formação. A insegurança é comum no mundo adulto, porque seria diferente para os adolescente e as crianças?

‘Se não me cobrar não terei motivação para melhorar e vou me acomodar’. Essa é uma crença irracional que gera estresse e desmotivação. A autocobrança gera tensão emocional e tensão gera rigidez, portanto, ocasiona ruminação psicológica como consequência provoca ansiedade e pode precipitar ou interromper a execução da uma boa coordenação motora que é fundamental para determinar a mecânica do movimento esportivo. Portanto, proporciona erros técnicos, táticos e até gasto energético desnecessário prejudicando o desempenho.

É muito comum confundirmos a motivação interna com a autocobrança, na motivação as consequências são ganhos em nossa confiança, sentimentos positivos, prazer por ter alcançado uma meta. A autocobrança gera autopunição, repressão, sentimentos negativos, culpa e frustração, afetando a autoestima e autoimagem.

A maioria dos jovens atletas possuem autocobrança excessiva, perfeccionismo extremo, as vezes por comparações irrealistas com grandes ídolos de suas modalidades.Por trás de tudo isso existe o medo (de se expor, de errar, de ser julgado, de ser comparado)  e até por pressão de seus pais e familiares.  Em muitas ocasiões essas atitudes são reforçadas negativamente por seus treinadores que exageram em sutilezas de performance, alguns colaboram (mesmo sem “querer”) para que isso aconteça. 

Temos de ensinar os atletas desde a iniciação esportiva a tolerar a frustração, os erros, a competir de maneira saudável e a perseverar, pois ao longo de toda a trajetória esportiva eles vão errar muito mais do que acertar, perder muito mais do que ganhar. Esse é o maior legado que o esporte pode ensinar para a vida de qualquer pessoa.

Covassin e Pero (2004), verificaram que atletas com indicativos de elevada autoconfiança mantiveram um baixo nível de ansiedade pré-competitiva, e que isso os fez permanecerem calmos e relaxados durante a competição. Também Kais e Raudsepp (2005), constataram que níveis mais elevados de ansiedade estão geralmente associados com as percepções negativas quanto ao desempenho esportivo desejado para a competição.

A técnica psicológica da simulação cognitiva, na qual os indivíduos se visualizam executando de maneira bem sucedida alguma tarefa que exija habilidade, melhora seu desempenho posterior (COSTA, 2003). Ou seja, se a pessoa tem uma avaliação negativa de seu desempenho, antecipa fracasso e se tem uma positiva, antecipa sucesso.

Qual a solução? Passos para melhorar a confiança e o desempenho competitivo.

1- Desenvolver uma atitude otimista:

O otimismo ou melhor uma atitude otimista é diferente do puro e simples pensamento positivo. O otimismo é poder perceber que encontramos aspectos positivos e lições, inclusive, diante de adversidades como derrotas e conflitos, por exemplo.

2 – Despertar a paciência.

A paciência deveria ser um mantra repetido exaustivamente nas categorias de base de todas as modalidades esportivas, por treinadores, comissões técnicas, familiares e dirigentes esportivos. Qual é o ser humano que já está maduro (biologicamente, fisicamente, cognitivamente e emocionalmente) com 16,17,18, 19 anos? Portanto, os jovens atletas estão sendo massacrados por excesso de cobranças por um modo de fazer esporte que não condiz com a realidade.

Pessoas impacientes e desinformadas sempre fazem comparações irreais, do tipo: “o Pelé aos 17 anos já estava humilhando os adversários no mundial”, ou, ” o Neymar aos 19 anos já era o um dos melhores  jogadores do mundo”. Genialidades são as exceções e não as regras, para cada Pelé e Neymar, pelo menos milhares de jovens ficaram pelo caminho por ter pulado etapas na formação, por não ter conseguido dar conta das expectativas, por profissionais com conhecimento inadequado, por não respeitar as fases de desenvolvimento humano, por um esporte sem estrutura, por muitos outros motivos.

3 – Desenvolver o autoconhecimento:

“Nossos piores adversários são estes: nossos complexos, nosso sentimento de culpa, a proibição de ganhar, o braço que treme, a incapacidade de se imaginar no lugar do vencedor, e todos os demônios que atraem nossa atenção para fora do jogo, fora do ‘aqui e agora’. E isso nos mostra o que está realmente em jogo: o verdadeiro combate é muito mais contra nós mesmos do que contra o outro. Muitos jovens se beneficiariam lembrando disso, e empregando sua energia com conhecimento de causa ….

Todo competidor ganharia em eficiência se tentasse conhecer a si mesmo melhor, compreender seus bloqueios e enfrentar seus demônios internos, cujos efeitos vão de uma simples perda de concentração ou de controle emocional ao sentimento de não estar autorizado a ganhar além de certo nível, de não poder ultrapassar um limite psicológico….

Quem leva a si mesmo a sério pode remover montanhas. A vitória não está tão fora de alcance nem é tão irreal quanto se pensa. Na verdade, ser bem-sucedido é algo bastante banal, às vezes é preciso muito pouco. As pessoas bem-sucedidas nem sempre têm qualidades tão extraordinárias; o que é extraordinário é que elas levaram suas qualidades a sério….

Infelizmente, a maioria das pessoas não se leva a sério, sem dúvida porque nunca foram levadas a serio. Levar-se a sério não implica arrogância, mas coragem de resistir ao julgamento de pessoas que não ousam se levar a sério, e que, portanto, não gostam de quem o faz. No fundo, o primeiro passa para se permitir fazer qualquer coisa na vida é não ter medo do medo dos outros…..

Ousar acreditar em si mesmo, humildemente, é a melhor resposta a dar, a melhor forma de avançar e se impor. Curiosamente, a humildade demonstra uma confiança a mais, uma força tranquila. Não significa bancar a celebridade, o que equivaleria a representar um papel inadequado (Ducasse e Chamalidis, 2009).

4 – Trabalhar duro:

Dedicação aos treinos, continuar trabalhando com afinco mesmo após grandes decepções, manter a disciplina, treinar com responsabilidade e concentrado. Cuidar do corpo, da alimentação, relaxar nos momentos de descanso. Desconectar do ambiente esportivo quando estiver de folga.

 

5 – estar física e tecnicamente preparado:

Em todos os esportes, a demonstração repetida de domínio, de habilidades esportivas, antes de uma competição, está relacionada com expressões de confiança em ser capaz de executar essas habilidades na competição.

6- concentrar-se em objetivos realísticos para executar nas competições:

Os atletas confiantes são capazes de deixar de lado os objetivos de resultado e de concentrar-se realisticamente em dar um passo de cada vez, e em apresentar-se de acordo com o melhor de sua habilidade.

7- sentir-se relaxado:

Atletas confiantes geralmente ficam à vontade e não tensos. Saber manter-se relaxado logo antes e durante competições importantes é uma parte importante da aprendizagem da confiança.

Estratégias de relaxamento, respiração profunda, desligar-se do ambiente em determinados momentos.

9- usar autoconversação positiva:

Atletas confiantes concentram-se em seus pontos fortes e no que querem fazer para ter um desempenho eficiente, em momentos críticos reorganize-se. Fala consigo mesmo, palavras motivadoras que lhe tragam sentido, que lhe auxiliem a se manter firmes e fortes.

10- utilizar imagens positivas bem-sucedidas:

Atletas confiantes ensaiam mentalmente seu desempenho, com freqüência e se imaginam competindo bem. São capazes de usar o ensaio de imagens, logo antes das competições, para ajudar na concentração em sentimentos e posições corporais adequadas à execução bem sucedida.

Faça ensaios mentais (reviver o melhor de seu desempenho). Nada melhor para desenvolver a confiança do que vivenciar nos treinos aquilo que você quer atingir na competição.

11 – os atletas devem se concentrar no que querem fazer:

Concentrar-se naquilo que ser quer fazer, ao invés daquilo que não se quer fazer, ajuda a manter a confiança.

12 – os atletas devem se concentrar, logo antes de e durante competições, em objetivos realísticos a ser executados, em vez de se preocupar com o resultado:

Preocupar-se em executar um “passo de cada vez”, ter um desempenho de acordo com o melhor de sua capacidade. Quando os objetivos de execução são atingidos, o resultado vem por si só.

13– os atletas deve se concentrar em seus pontos fortes e não em suas limitações ou em seus erros:

Nas competições os atletas devem se concentrar no ponto forte. Durante os treinos é que devem tentar desenvolver os pontos fracos.

14- os atletas devem preparar e cumprir um plano de competição:

Como e quando se aquecer, o que pensar, como minimizar as distrações. Manter-se focado no aqui agora, no que está acontecendo no momento.

Finalizando:

Como tentei relatar anteriormente a autoconfiança é a principal competência que psicólogos, treinadores, pais e todos aqueles que de alguma maneira estão envolvidos com esporte podem contribuir para o desenvolvimento humano de atletas. Uma pessoa confiante faz escolhas melhores, terá condições emocionais mais favoráveis de treinabilidade, poderá superar com mais facilidade as adversidades de sua vida, já que possui mais recursos psicológicos positivos.  Como toda competência para ser desenvolivida é necessário, tempo, esforço, experiências diversas, mediação adequada, trocas, empatia e fundamentalmente, autoconhecimento.

 

Referencias:

François Ducasse e Makis Chamalidis. Cabeça de Campeão: como a psicologia forma vencedores no esporte e na vida. Ed. Cob Cultural /Casa da Palavra.

COSTA, A. Auto-eficácia e Burnout. Revista Eletrônica InterAção Psy, v.35, n.1, p.34-67, 2003.

COVASSIN, T.; PERO, S. The relationship between self-confidence, mood state, and anxiety among collegiate tennis players. Journal of Sport Behavior, v.27, n.3, p. 230-242, 2004.

KAIS, K.; RAUDSEPP, L. Intensity And Direction Of Competitive State Anxiety, Self-Confidence And Athletic Performance. Kinesiology, v.37, n.1, p13, 2005.

WEINBERG, R.S; GOULD, D. Fundamentos da Psicologia do Esporte e do Exercício. 2.ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

Garry Martin – Consultoria em Psicologia no Esporte: orientações práticas em análise do comportamento. Ed. IAC, 2001. 

Terry Orlick – Em busca da Excelência: como vencer no esporte e na vida treinando sua mente. Ed. Artmed, 2009.

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Abraços.

Até!!!

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