Entrevista – Cristianne Carvalho

O Blog entrevistou a psicóloga do esporte Cristianne Carvalho. Dando continuidade a série de entrevistas “Quem faz a Psicologia do Esporte?”. 

Cristianne é mestre em Psicologia social pela UERJ, doutoranda em Psicologia Social pela UERJ. Especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade de Volta Redonda/RJ. Atualmente é Professora da Universidade Federal do Maranhão, Supervisora de estágio docente em Psicologia do Esporte, Vice-Presidente da ABRAPESP e Psicóloga do Esporte da Seleção Maranhense de Futebol de Areia.

Blog – Comente sobre sua trajetória na Psicologia do Esporte? Porque resolveu trabalhar nessa àrea?

Entrevista - Cristianne Carvalho

Cristianne: Bem, minha formação é em psicologia clínica, mas sempre quiz trabalhar com mais pessoas além do consultório, encontrei isso na sala de aula (sou professora universitária) e depois a Psicologia do Esporte completou o que faltava. Além de poder trabalhar com grupos e pessoas diversas, nessa área a diversidade é uma marca. Podemos trabalhar com modalidades esportivas diferentes em settings dos mais variados de acordo com a estrutura dos clubes ou dos atletas. Isso nos estimula a uma atualização e flexibilidade constantes  para lidar com as demandas. Na Psicologia do Esporte existe uma liberdade maior em vários aspectos, na relação com os clientes, no setting de trabalho, na forma de intervenção, mas se isso por um lado facilita a intervenção nos demanda mais responsabilidade porque temos que lidar com resultados concretos à curto prazo que o universo esportivo demanda, o que não é comum nas outras áreas da psicologia. É preciso ter conhecimento e fundamento teórico específico.

 Mas isso eu fui descobrindo depois com a minha inserção na prática. O que me despertou mesmo inicialmente, além da necessidade de trabalhar profissionalmente com mais pessoas, pessoalmente, foi a minha relação com o esporte. Não fui atleta profissional, mas sempre gostei e pratiquei esportes. Sempre quiz saber um pouco mais do que os resultados dos jogos, as regras, sobre os atletas, programas esportivos, enfim. Fazer isso profissionalmente é um grande prazer, não cansa nunca. O prazer é fundamental para manter a motivação em dia e trabalhar com o esporte, seja academicamente ou na prática.

Blog – Sua trajetoria na àrea começou no Maranhão, como é fazer psicologia do esporte fora dos maiores centro urbanos?

 Cristianne: Sim, comecei lá em 2000, diria que empiricamente, pois pouco se sabia sobre a Psicologia do Esporte no Brasil. A produção científica começa nos anos 90 muito timidamente. Na faculdade (término em 1993) não ouvir falar de Psicologia do Esporte, e olha que eu me formei em Brasília. Então minha busca foi pessoal e minha prática foi autodidata, pois para sair de São Luis como professora universitária e fazer um curso em São Paulo por 2 anos era impossível. Conheci  a Kátia Rúbio em 2000 num congresso de Psicologia e foi amor a primeira vista (com a Psicologia do Esporte). A Kátia têm muita responsabilidade nesse amor, pois a paixão que ela transmite ao falar disso e a sua disponibilidade são acolhedoras.
Nossa realidade local é difícil. Se nos grandes centros os psicólogos ainda sentem dificuldades de se inserir no mercado, no Maranhão então é quase impossível. Quase! Porque com muita disposição, conhecimento e determinação poucas coisas são impossíveis. Sou a pioneira lá desde 2000, hoje já posso contar com alguns ex-alunos que passaram pelo estágio supervisionado nessa área na UFMA, onde leciono.  A Maria Emília ( é psicóloga do esporte, foi minha aluna e fez o curso de especialização em Psicologia do Esporte no Sedes Sapientiae em São Paulo), nós já realizamos diversos trabalhos juntas com natação, futebol de areia e futebol de campo. Hoje posso dizer que a Psicologia do Esporte existe na capital maranhense, mas é um batalha constante para conquistar novos espaços.

Blog – Como foi sua experiencia como professora universitária? Teve possibilidade de ministrar aulas de psicologia do esporte?

 Cristiane:  Minha experiência é como professora da Universidade Federal do Maranhão -UFMA. Institui o estágio supervisionado em Psicologia do Esporte desde 2006 e assumi a disciplina de psicologia aplicada no curso de Educação física. No curso de Psicologia não temos uma disciplina de psicologia do esporte ainda. Na reforma curricular que deve acontecer até o fim do ano, podemos ter uma disciplina obrigatória de 45horas de psicologia do esporte. Uma luta dura, mas vai valer à pena. Os alunos têm recebido bem o estágio, sempre houve procura desde o início.

Blog – Você está fazendo doutorado. Conte-nos sobre seu tema de estudo. Qual a motivação que lhe fez estudar esse assunto?

Cristianne: Estou pesquisando sobre a história da psicologia do esporte no brasil, mais precisamente a história antes de João Carvalhaes nos anos 1950, pois não há nada sobre isso ainda. Minha motivação começou por perceber que nada havia sobre isso e que com certeza alguma coisa ou algumas pessoas já vinham desenvolvendo algo antes do João Carvalhaes, até para ele ganhar o espaço que ocupou como psicólogo da seleção brasileira campeã mundial de futebol em 1958. Gosto muito de história e juntar história e esporte foi a “sopa no mel”. Sem contar com a escolha e do Instituto de Psicologia Social da UERJ e da minha orientadora Ana Maria Jacó-Vilela, uma grande estudiosa em história da psicologia no brasil. Assim, foi possível construir um projeto para estudar o tema, pois não existem doutorados em psicologia do esporte no brasil, temos que buscar outras linhas de pesquisa.

Blog  – Você passou pela seleção maranhanse de beach socccer. Como foi essa experiencia? Conte-nos um pouco sobre seu trabalho.

Cristianne:  Fui psicóloga da seleção maranhense de beach soccer e convidei a Maria Emília Alvares, também maranhense para fazer uma parceria comigo. Já visualizava o estágio supervisionado, pois ela poderia ser a supervisora técnica dos alunos em campo e eu na instituição, mas isso foi um segundo tempo dessa história que culminou em um projeto social para atender garotos da periferia. O primeiro tempo, foi a seleção maranhense, que sempre em períodos de competição nacional, uma vez por ano, reunia os atletas durante um mês para a preparação. Dentre os atletas não haviam só os maranhenses, mas também atletas de outros estados, de outras seleções, inclusive os da seleção brasileira. O Jorginho, o ex-goleiro Robertinho já fizeram parte da seleção maranhense. Isso é comum na competição nacional. Os atletas nem sempre defendem seus estados.  Feito essa contextualização, o trabalho tinha de ser breve, pois os atletas só se reuniam para o período preparatório no máximo um mês antes. Para a psicologia sabemos que é muito pouco tempo para fazer algo. No primeiro ano consegui, junto à federeção que sempre nos apoiou, me reunir com os atletas maranhenses uma ou duas semans antes.  Os demais atletas de outros estados se agregavam ao grupo aos poucos. Foi possível realizar entrevistas e encontros com o grupo, além de aplicar alguns testes. Fora isso estávamos sempre observando os treinos e jogos, assim como, em contato com a comissão técnica. Tivemos quatro participações com a seleção e iniciamos com um quarto lugar, vice-campeonato e por último, em 2008 a seleção maranhense foi campeã nacional. No ano passado já estava fazendo o meu doutorado e não houve participação da psicologia. O time nem se classificou para as quartas de final. Alguma relação? Claro que não se pode afirmar isso, mas com certeza nossa participação surtiu efeito pelo espaço a pela responsabilidade que tivemos para realizar o trabalho.
O fato é que, esse trabalho foi póssível pela abertura dos dirigentes da federação da modalidade que souberam do meu trabalho com o futebol de campo com as categorias de base na capital.

Blog – Como foi sua relação com os outros profissionais da area esportiva? Técnicos, preparadores físicos médicos etc?

Cristianne:  Tivemos boas e más experiências nesse sentido. Depois da abertura dos dirigentes das federações o técnico passou a ser nossa porta de entrada. Se ele não aceitar o trabalho, não há o que fazer. Mesmo que não acredite muito, mas dê espaço, é possível mostrar como funciona a psicologia do esporte e os resultados podem aparecer, ou seja, podemos fazer um trabalho de “boa vizinhança” para garantir o espaço. Junto com o técnico veio a confiança restante da comissão técnica e do departamento médico. No caso do beach soccer não havia departamento médico, apenas comissão técnica e passamos por todas essas situações. Cada técnico apresenta uma realidade diferente, assim como o grupo de atletas que se reunia. Temos que ter flexibilidade para estabelcecer relações e mostrar nosso trabalho de forma ética. Isso quer dizer que não vale tudo para garantir o espaço para trabalhar, existem condições que não podemos abrir mão. Em outros trabalhos com o futebol de campo a psicologia pertencia ao departamento médico, mas o técnico ignorava nossa presença e fazia de tudo para boicotar nosso trabalho junto aos atletas. Chegou a um ponto que foi impossível continuar.

Blog  –  Você está na diretoria da atual gestão da Abrapesp (Associação Brasileira de Psicologia do Esporte). Quais são as perspectivas para essa gestão?

Cristianne: Sou a vice-presidente na atual gestão, mas não é o cargo que importa, pois já era associada e sempre estive nessa luta desde o início. O que importa mesmo é  a responsabilidade de estar à frente de uma instituição que pode fazer muito pela psicologia do esporte. Não é fácil,  é necessário uma capacidade de doação pessoal grande para dar conta das demandas que a ABRAPESP apresenta. Mas acredito que o grupo atual pode dar continuidade ao trabalho já iniciado pela gestão anterior, acrescentando algumas mudanças burocráticas internas e tentando difundir mais o trabalho da psicologia do esporte no Brasil, descentralizar um pouco dos grandes centros, além de buscar mais associados para nos ajudar nisso. Acho que esses são nossos maiores desafio nessa gestão.

Blog –  Gostaria de comentar algo com o blog? alguma sugestão de evento, atividades etc?

Cristianne: Gostaria de agradecer o convite compartilhar um pouco a minha experiência sobre a Psicologia do Esporte. Aproveito para convidar os alunos e profissionais dessa área a visitar nosso blog e site da ABRAPESP (blog: http://abrapesp.blogspot.com/ e site: www.abrapesp.org.br)  para saber o que estamos fazendo e para se associarem e “engrossar o caldo” da Psicologia Esporte no Brasil.
Vale lembrar do Congresso de Psicologia Ciência e  Profissão (que será realizado em São Paulo entre os dias 03 e 07 de Setembro). A ABRAPESP estará participando como entidade representante  da Psicologia do Esporte. Com vários simpósios, mesas redondas e mini-cursos, além de apresentação de trabalhos individuais sobre as diversas modalidades esportivas, atividade física e projetos sociais.

Abraços.

Até!!!

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3 thoughts to “Entrevista – Cristianne Carvalho”

  1. Ro amei seu blog, super profissional!!!
    Talvez possamos comecar a traduzir suas entrevistas e postar em ingles, para vc mostrar o profissional qualificado e antenado que temos no Brasil.
    Beijos
    sua Aunt Deia

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