Esporte e Política não se misturam?

Poucos dias atrás o jornalista Tiagor Leifert em sua coluna na Revista GQ Brasil, defendeu que o esporte não é local para manifestações políticas, segue abaixo parte de suas declarações:

“Será que o evento esportivo é um local apropriado para manifestações políticas? Eu acho que não. Olhando por todos os lados, não vejo motivos para politizar o esporte.”

“Quando política e esporte se misturam dá ruim. Vou poupá-los dos detalhes, mas basta olhar nossos últimos grandes eventos para entender que essas duas substâncias não devem ser consumidas ao mesmo tempo. O que me leva à minha primeira grande preocupação de 2018: é ano eleitoral. (…) Tem muita coisa contaminada por aí.”

“Não acho justo [o atleta] hackear esse momento, pelo qual está sendo pago, para levar adiante causas pessoais. É para isso que existe a rede social: ali, o jogador faz o que quiser”

“No campo? Ele está para entreter e representar até mesmo os torcedores que votam e pensam diferente.”

” Transmissões  esportivas devem ser um “desligamento da realidade”, precisamos imunizar o pouco espaço que ainda temos de diversão‘.

O esporte é um fenômeno sociocultural complexo, de grande relevância e inserido globalmente nas mais diferentes etnias do planeta. O esporte é um elemento de nossa cultura que pode ser compreendido por diversos olhares, disciplinas e áreas de atuação. O esporte é ciência, tecnologia, é história, sociologia, é paixão, é negócio, é lazer, é saúde, é doença, é política! Não é simplesmente só um espaço para entretenimento e ‘business’.
Ao contrário do que pensa o jornalista, eu não dissocio o esporte do espectro político, simplesmente porque não creio que isso seja possível, em todos os contextos e por todos os lados.
Os atletas têm o direito de se manifestar em qualquer regime democrático essa é uma premissa básica. Aliás, segundo a nossa constituição todo cidadão exerce esse direito. Mesmo quando o conteúdo relatado é diferente de nossa visão de mundo. Isso é democracia.

Os atletas por serem figuras públicas de muito alcance social se tornam sem querer referencias positivas ou negativas e até formadores de opinião. Não é à toa que a imagem deles tem muito apelo popular. Nossos atletas se manifestam pouco diante de tantas mazelas sociais que enfrentamos no nosso país. Algumas exceções fogem à regra. No geral o atleta brasileiro me parece “alheio” inclusive as coisas que acontecem na sua modalidade. Talvez por receio de represálias ou medo de se expor. Um retrato da realidade da maioria de nossa população que  é alheia à política. Temos a mania de reclamar da política e dos políticos e esquecemos que somos nós que os elegemos e não os fiscalizamos. Fazer política não é fácil, dá trabalho, é uma tarefa árdua, chata, mas deveria ser nosso papel como cidadãos plenos de direitos e deveres.

São muitos os exemplos no Brasil e no mundo, onde manifestações políticas serviram no mínimo para ampliarmos o debate sobre algum tema relevante a sociedade, principalmente, relacionados aos direitos humanos e das minorias. O que seria a luta contra o racismo sem os gestos de Tommie Smith e John Carlos nos Jogos Olímpicos de 1968? Como estaria a África do Sul se Nelson Mandela não tivesse a visão de minimizar as feridas do apartheid quando apoiou a seleção de rúgbi de seu país onde sediaram a copa do mundo em 1995? Será que o mundo saberia da perseguição aos atletas homossexuais russos se no mundial de atletismo de 2013 as campeãs do revezamento não se beijassem no pódio? Dias atrás o jogador de futebol, Cristiano Ronaldo fez um vídeo pedindo auxilio as crianças vítimas da guerra na Síria. Isso tudo é política! Assim como, a falta de investimento em projetos esportivos para a saúde da população é política! A falta de quadras poliesportivas adequadas e aulas de educação física nas escolas é política! A compra de votos para o Rio de Janeiro sediar os jogos olímpicos, a corrupção nas obras e o legado pífio é política! O doping disseminado pelo estado numa potência esportiva é política! Uma torcedora iraniana lutando para que as mulheres de seu país possam frequentar estádios de futebol, é política! A ONU possuir um escritório exclusivo com programas esportivos em zonas de guerra e em áreas de extrema vulnerabilidade social é política!

“Muhammad Ali, o maior boxeador de todos os tempos, negou-se a combater no Vietnã justamente por saber o valor que o veredito de um ídolo do esporte teria em torno do debate da guerra. Mais recentemente, atletas da NBA demostraram grande insatisfação com o governo de Donald Trump. Jogadores de futebol americano foram na mesma linha e muitos passaram a se ajoelhar durante a execução do hino nacional.

Quem proíbe o jogador de participar disso está, indiretamente, apoiando ideias reacionárias.

E o caminho é inverso. Em um momento tão polarizado, extravasar isso é essencial. Só com o diálogo chegaremos a algum lugar. Espero que o esporte em geral continue exercendo sua função de servir de palco para ampliar as grandes discussões de um país, do mundo, para além da diversão” (Walter Casagrande).

Viva a democracia! 

Referencias:

https://gq.globo.com/Colunas/Tiago-Leifert/noticia/2018/02/evento-esportivo-nao-e-lugar-de-manifestacao-politica.html

https://gq.globo.com/Colunas/Walter-Casagrande/noticia/2018/02/o-que-e-democracia.html

https://www.vice.com/pt_br/article/gy8mzq/tudo-na-vida-e-politica-inclusive-o-esporte

https://boainformacao.com.br/2018/03/a-melhor-resposta-ao-texto-de-tiago-leifert-veio-do-jornalista-jamil-chade/

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Abracços!!!

Até …

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