Ex- ginasta abre seu coração

O post de hoje é diferente, um pouco mais longo do que costumo compartilhar. Quem o  escreveu foi a ex-atleta, Isabella Cêpa, ela conta um pouco da sua trajetória no esporte. Isabella é leitora do blog, têm 18 anos, entrou em contato comigo, trocamos algumas mensagens e prôpus a ela que escrevesse um pouco. Confira!!!

Vale ressaltar a importância do trabalho do psicólogo do esporte nas categorias de base, talvez a nossa principal função no esporte de rendimento é justamente trabalhar na formação dos futuros atletas e dar suporte a grande maioria que não se tornará atleta adulto. Ficam as perguntas: será que as angústias, medos e conflitos de experiências similares com a de Isabella não poderiam ser minimizadas? Quantos talentos foram desperdiçados nas diversas modalidades e ficaram pelo caminho pela simples falta de auxilio psicológico adequado?

***

(Isabella em ação com 11 anos)

Comecei a treinar Ginástica Rítmica numa turma de iniciação em novembro de 2003, eu tinha 10 anos. Uma amiga que já fazia aulas me chamou pra fazer com ela porque eu era muito flexível. Depois de um mês de aulas a professora disse que eu tinha muito talento e me convidou para fazer parte da equipe do Pré-Treinamento (que participava das competições estaduais não federadas).

     Em 2004. Eu que estudava á tarde tive que me transferir para o período da manhã, porque os treinos eram de terça à sexta das 14h às 17h (com a mesma professora). Eu nunca tinha competido nada na vida, nem olimpíadas no colégio, porque eu era muito ruim nesses esportes de time (futebol, volley, basquete, etc.). Minha primeira competição foi a Copa São Paulo no início de 2004 ainda com 10 anos. Essa também foi a primeira vez que subi num pódium e recebi uma medalha, quando fui vice-campeã (me lembro de ter segurado o choro na hora em que colocaram a medalha no meu pescoço, por não saber muito bem se era adequado). No final desse mesmo ano, a técnica da equipe do treinamento (que participava de campeonatos estaduais e brasileiros e as atletas eram federadas) me convidou para entrar na equipe.

     Em 2005. Mudei de “turma”, de uniforme, de professora, de tablado, e passei a treinar de 2ª a sábado das 14h às 19h30. Nisso eu tinha 11 anos. Tínhamos um preparador físico e uma professora de ballet também. As meninas do treinamento não me receberam NADA bem, porque de certa forma como eu estava me destacando muito rápido estava roubando a cena delas. Elas me zoavam em todas as oportunidades que tinham e me excluíam muito, o que acabou sendo bom, porque assim enquanto elas perdiam tempo falando mal de mim, eu ia para o tablado onde treinavam as meninas da iniciação (que cediam o espaço de treino delas para mim, porque eu era a única da equipe do treinamento que falava com elas sem o objetivo de caçoar) e ficava treinando sozinha e concentrada. Com o tempo as meninas da iniciação começaram a fazer de mim uma ídola, me davam presentes, pediam conselhos e nunca deixavam de dizer que dariam tudo para estar no meu lugar.

     Quem montava minhas séries ainda era a minha professora do Pré Treinamento, então mesmo quando a técnica do treinamento era chata comigo, eu ainda tinha o carinho da minha outra professora. No começo desse mesmo ano participei do campeonato estadual (Paulista) numa categoria para meninas não federadas. Com experiência zero consegui subir 5 vezes no lugar mais alto do pódium nessa competição.

     No segundo semestre do ano aconteceria o Campeonato Brasileiro em Toledo-PR. Cada equipe só podia ter quatro meninas, nós éramos sete. Minha técnica então simulou uma competição entre as meninas da equipe e as quatro melhores iriam para o Brasileiro. Algumas das meninas ficaram com raivinha de mim por antecipação porque sabiam que eu já estava escolhida. Me tornei atleta federada então, no segundo semestre eu já tinha completado 12 anos. Fomos para o Brasileiro, eu e mais três da equipe, minha técnica e uma das meninas que não havia sido escolhida foi só para assistir. Desse campeonato participaram Drielly Daltoé e Eliane Sampaio (que nesse ano foi bi-campeã brasileira), ambas acabaram de ganhar o ouro pela seleção brasileira em Guadalajara. Me lembro que já na hora que chegamos ao alojamento que era de três pessoas por quarto, eu sabia que eu ia ficar de fora e acabar dormindo com a minha técnica, como sobrou uma menina, ela me fez companhia. As meninas do outro quarto tinham levado na mala doces, bolachas entre outros crimes calóricos que se minha técnica soubesse enfartaria. A competição foi sediada pela Sadia, logo, na hora do almoço haviam dois buffets : um de saladas e frutas, e outro de nuggets, salsichas etc. Cada mesa tinha 4 lugares onde sentavam-se as três da minha equipe e a colega que foi pra assistir, eu me sentava sozinha com minha técnica. As meninas aproveitavam para comer porcarias, enquanto eu ficava só na saladinha e bifinho de frango. Pela minha disciplina diferenciada do resto da equipe, ganhei logo de cara a atenção das árbitras e técnicas que observavam tudo.

     Quando fomos treinar com as outras meninas do Brasil inteiro eu vi o quanto o nível técnico delas estava acima do meu, então enquanto treinava, as observava e tentava corrigir alguns dos meus erros me baseando nos acertos delas. Acabei a competição em 21º lugar, apenas as 15 primeiras iam para a final, mas fiquei muito feliz, afinal era a minha primeira vez na competição mais importante do país. Minha técnica voltou para São Paulo trazendo na bagagem elogios para mim de todas as outras técnicas e das árbitras.

     Todo final de ano tinha uma apresentação de todas as turmas, aberta para os sócios do clube e os pais. Aprimorei as coreografias que eu tinha apresentado no brasileiro com a ajuda de uma ginasta olímpica africana que treinava comigo (que era brava só comigo também). Me lembro (como se fosse hoje) do locutor anunciando minha entrada na quadra “Apresenta: Isabella Cêpa, campeã estadual em todas as categorias”. Eu já estava famosa na diretoria e todos lá esperavam pela minha apresentação, entrei confiante e cravei (completei com perfeição) minhas duas séries. Fui muito aplaudida, como poderia me esquecer ? Terminei o ano tranquila, confiante e esperando que viesse o próximo.

     Chegou 2006. A minha professora do pré treinamento foi convidada para trabalhar num cruzeiro e saiu do clube. Agora era só a minha técnica para dar conta de todas as meninas. Obviamente não deu certo. Faltando dois meses para o campeonato estadual (nesse eu já competiria na categoria federada) eu ainda não tinha minhas coreografias montadas. Não senti confiança para assumir a competição, além disso há muito tempo eu queria ser uma criança normal como as da minha sala, que comiam no McDonalds, iam no shopping à tarde, dormiam na casa das amigas, tinham namoradinhos etc. Então parei de treinar.

     Depois de dois meses parada (o que é praticamente o assassinato da carreira de uma ginasta) uma amiga da equipe que estudava na mesma escola que eu disse que elas estavam precisando de uma menina para completar um conjunto para o torneio nacional. Acabei voltando a treinar porque já estava com saudades. Eu nunca tinha participado de um conjunto, vi que era muito mais fácil do que as competições individuais (que eram meu forte). Minha técnica então montou duas coreografias individuais meio nas coxas para eu competir, deixando claro que eu era uma das favoritas à 1ª colocação. Mas esses dois meses parada tinham comprometido muito minha flexibilidade e meu físico. Então no Torneio Nacional (que aconteceu em Florianópolis-SC) competi pelo conjunto brincando, cravei  a minha parte da série sem dificuldade, mas tinha uma menina que sempre errava tudo, ela jogou o aparelho pra fora da quadra e acabamos ficando em último hahaha. As meninas da equipe ficaram com raiva dela, mas como eu tinha cumprido com a minha parte, e conjunto não era a minha especialidade, nem liguei muito. Estava mais preocupada com o individual, porque eu sabia que todos estavam esperando uma coisa que eu não estava segura de que conseguiria fazer. Fui muito mal nas duas séries, saí da quadra com muita vergonha e raiva, me lembro até hoje do ódio com o que eu recolhia da quadra os bichinhos de pelúcia que o pessoal da arquibancada jogou. Minha vontade era gritar “será que vocês não viram a m**** que eu acabei de fazer? Eu não sou nenhuma estrela para ser homenageada independente da qualidade meu trabalho!”. Cheguei no hotel e liguei para o meu pai contando que uma menina da minha equipe tinha ido melhor do que eu (ps: ela tinha ficado em 14º e eu em 24º. Eram 125 meninas do brasil todo competindo, era pra eu estar feliz né?), ele ficou muito bravo e ficou me perguntando por quê ela tinha ido melhor do que eu! Chegando em São Paulo uma árbitra fez questão de vir até mim e dizer o quanto eu decepcionei todo mundo que tinha expectativas de que eu fosse ganhar a competição, que tinha sido um lixo, realmente muito fraca perto do que elas estavam esperando. Engoli tudo isso sem levar muito a sério, afinal eu tinha 13 anos nem sabia o que era entrar em depressão. Me determinei a surpreender todos que estavam falando mal de mim no estadual do ano seguinte.

      Na passagem da tocha olímpica (Pan 2007) minha equipe faria uma apresentação no teatro municipal, nesse dia (até hoje não sei porque) acordei sem conseguir mexer do pescoço para baixo, sentia muita dor quando tentava me movimentar, fiquei ali travada na minha cama por algumas horas e não pude ir apresentar, depois disso retomei os treinos normalmente, porém mais insegura ainda. Faltando um mês para chegar o campeonato estadual, minha técnica ainda não tinha montado minhas coreografias. Tive muito medo e muita vergonha de entrar na quadra sem ter a certeza de que eu seria a ginasta que eles queriam ver, então inventei que por recomendação médica eu teria que parar de treinar para não machucar minha coluna, e simplesmente nunca mais apareci.

     Hoje sentada no sofá vendo Record não aguento mais ouvir falar que aquelas meninas que competiam comigo realizaram os sonhos que eu também poderia ter realizado se não tivesse desistido. Hoje já sou muito velha para voltar a treinar. Não sei muito bem o que fazer, o que pensar…

     Só espero que a minha história sirva de exemplo para quem ainda está no caminho de realizar um sonho como atleta, se eu pudesse dizer algumas palavras à mim mesma naquela época,diria : NÃO DESISTA, NUNCA! Amar um esporte não é o suficiente, querer não é o suficiente, ser bom também não é o suficiente. É preciso querer mais do que qualquer outra coisa na vida, acreditar muito em si mesma e no dom que você tem, ir atrás de melhores técnicos, equipes e, por favor, PSICÓLOGOS. Se for preciso mudar de cidade, de país, faça isso ! E se não gostar, volte. Se é realmente isso que você quer, dê prioridade total aos treinos e tudo isso trará uma recompensa que será o seu orgulho para o resto da vida.

  Talvez se alguém tivesse me dito isso, essa história seria bem diferente.

***


Isabella, se interessa por moda e têm um blog muito bacana, vale a pena conferir:
 http://isabellacepa.blogspot.com/

Abraços.

Até!!!

 

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13 ideias sobre “Ex- ginasta abre seu coração

  1. Andreia White

    Ro, muito bom o relato da Isabella.
    Eu percebo a diferença nas crianças que praticam esportes aqui nos EUA. Aqui eles sabem quando são bons para seguirem adiante na carreira, ou seja, eles vão tentar bolsas de estudo para a faculdade através do esporte e quem sabe ser contratado para um time da liga maior como NFL, MLB ou NBA, assim como os atletas de outros esportes. O incentivo vem de casa e do técnico/treinador pq um bom atleta leva consigo a marca do seu treinador, o nome dessa pessoa será lembrado e poderá deixar de ser um treinador de High School para se tornar um treinador de uma universidade por exemplo, e mesmo que isso não aconteça existe o orgulho de ver um atleta que foi treinado por sua equipe avançando nas categorias.
    Claro que o contrário também, mas muito comumente parte do lado dos pais que por terem o sonho da galinha dos ovos de ouro acabam por frustrar uma criança/adolescente tentando força-lo a ser aquilo que ele não é: um atleta que se tornará o próximo Joe Montana ou Joe DiMaggio.
    Também existe o descaso tecnico, mas percebo que é muito pouco. Não vamos esquecer que esse é o país dos números e todo mundo quer levar o seu.
    Acredito que a principal diferença e por isso mesmo os atletas americanos se destacam é pelo incentivo recebido desde criança. As escolas tem estrutura para manter seus atletas.
    Moro em uma cidade pequena do sudeste americano, mas o centro de treinamento dos atletas é excelente, eu estou falando de High School. Eles contam com uma academia de ponta, aparelhos novos como esteira, elíptico, pesos, etc e isso faz a diferença na vida de um futuro atleta. Não vou esquecer de comentar aqui o suporte psicológico, o auxílio recebido de um profissional da psicologia do esporte, que segundo meu marido esse profissional é muito bem valorizado.
    O dia em que o Brasil olhar para o esporte com profissionalismo e não somente como mais uma fonte de desvio de verba em época de grandes competições, meninas como a Isabella tratam não só medalhas como muito orgulho ao país. E talentos como esse não serão desperdiçados por falta de estrutura.
    Beijos e sucesso!

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      1. Rodrigo

        Boa noite,
        Estou passando por isso…..minha filha tem 10 anos e treina na equipe no Minas Tênis Clube.
        Ano passado ficou em 14 lugar no brasileiro em sua primeira competição e terceiro por equipes em Natal
        É apaixonada pela ginástica artística e hoje me disse a seguinte frase
        – Pai, cansei…quero sair da ginástica.
        Tô querendo assimilar este golpe e pensando o que dizer a ela.

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  2. Dâmaris

    Muito obrigado por dividir sua historia de vida porque hoje mesmo pensei em parar de fazer o que mais amo nessa vida pelos mesmos motivos q vc parou mas você me fez pensar que um dia serei eu que estarei la muito obrigado torça por mim quero pelo menos conseguir fazer que nem você conseguiu eu quero conseguir chegar la em algum luga o primeiro MUITO OBRIGADO POR ME IMPEDIR DE DESSISTIR…

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  3. amanda

    obrigada , vou competir daqui a alguns dias
    sou nova na ginastica ritmica vou para os estriantes em cascavel
    competir arco e conjunto maos livres .
    sinseramente prefiro mil vezes arco do que o conjunto !! kkk
    uma coisa sou igual a vc prefiro trilhoes de vezes individual do que conjunto !!]
    brigada mais uma vez por tudo !!]
    beijos
    de uma ginasta que sonha em ser campea brasileira !!!

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  4. Fernanda Hernandez

    Eu e a Isabella somos amigas há muito tempo. Infelizmente não fiz parte dessa fase de sua vida, cheguei depois quando ela já tinha se tornado a pessoa maravilhosa que é hoje. Esse sonho que ela tinha pode não ter se realizado, mas em compensação ela se tornou uma pessoa da qual eu realmente me orgulho de ser amiga. É uma sacanagem isso que fazem com jovens atletas, por experiência própria. Muitos técnicos tem o orgulho de falar quando seu aluno crava uma série dessa: Ela é minha aluna, eu que treinei. Se o aluno completa tudo com êxito, o mérito é do técnico, mas se ela erra alguma coisinha a culpa é toda do aluno. É um absurdo, mas é a triste história do nosso esporte.
    Só queria dizer mesmo que, Isa, você é a pessoa mais linda, generosa e humilde que eu já conheci. Orgulho de ter você como amiga.

    Um beijo,
    Fernanda

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  5. nadir gomes da cruz

    Nossa que msg linda me emocionei mt tenho uma filha com 9 anos que treina ginastica olimpica em uma equipe de rendimento os treinos dela são de segunda a sabado 4 horas por dia e muito e sacrificante,ela sai de casa 6 horas da manha e chega 7 h30 da noite,a vida dela e estudar e fazer ginastica vejo ela feliz mas muitas vesez vejo um sorriso triste mas ela gosta, mas muita coisa que eu vi na sua historia eo que me preocupa vejo muitas coisa muitas humilhação as vesez chego a pensar se vale tirar a infancia de uma criança fora que o futuro dela me preocupa muito as vesez tenho vontade de jogar tudo para o alto mas o os tecnicos dela fala que ela e muito talentosa e tem chance entrar no mercado da ginastica mas eu sei que e mt complicado mas sua historia da muita força me ajudou muito parei para refletir .quem deve ver e ela por enquanto ela nunca falou em desistisr faz dois anos que ela treina obrigado pela sua historia

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  6. Sayuri

    Oi…Adorei a forma de como ela aborda o assunto, muitas meninas passam por isso é inclusive minha filha, ela tem nove anos adora ginástica rítmica e a seis meses comesou a fazer passou em um teste para pré equipe, mas confesso que estou quase tirando ela de tanto ver a tristeza dela quando chega dos treinos são meninas muito difícil e ela não tem amigas lá e algumas sombam dela por ela não ser flexível de coluna, ela é flexível de braço e perna mas na coluna não então elas sombam dela e falam que não sabe como ela passou. Mas pela minha surpresa ela não quer desistir fica sozinha almoça sozinha faz aquecimento sozinha porque elas não querem ficar perto aí sempre sobra ela….Ela treina em casa todo dia fez até um calendário de atividades e a cada melhora comemora, Faz o mata borao, dorsal, ela é muito dedicada, não toma mais refrigerante e doce só uma vez por semana e veio dela mesma…eu as vezes até insisto pra ela comer porque é muito nova e ela fica brava..Me sinto triste por vela triste queria que ela parasse mais depois de ver essa história da Isabela não vou mais falar pra ela desistir, não sei se a coluna vai ficar flexível mais ficaria pior de vela triste por não tentar. ….Muito obrigada. …

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