Manoel Sérgio – Entrevista

Manoel Sérgio, filósofo do futebol em entrevista para o Site Universidade do Futebol .

Manuel Sérgio, filósofo do futebol Influente na forma de trabalho de Mourinho, fala sobre filosofia no futebol e nas comissões técnicas Equipe Universidade do Futebol.

A filosofia pode ser considerada como a reflexão radical, rigorosa e de conjunto dos fenômenos que envolvem nossa realidade. E como tal, não deve estar de fora de nenhuma das preocupações e atividades humanas.

Neste sentido, o futebol é uma destas atividades que, segundo Manuel Sérgio, pode se beneficiar muito das contribuições desta importante, mas ainda desconhecida área do conhecimento.

Abordando temas polêmicos, como é praxe no pensamento filosófico, este erudito e respeitado professor lisboeta tem contribuido ao longo das últimas décadas para um repensar da Educação Física e do esporte, onde o futebol se insere como fenômeno especial e uma das mais importantes manifestações culturais contemporâneas. Neste aspecto, talvez a sua maior contribuição seja a proposta de criação de uma “Ciência da Motricidade Humana”, enquanto um conjunto de conhecimentos sistematizados, com objeto de estudo próprio que caracteriza todo saber científico, e que consiste em uma verdadeira mudança de paradigma diante do pensamento convencional, cartesiano e tecnicista que ainda envolve a Educação Física, o esporte de forma geral e o futebol particularmente.

Para ele esta nova ciência (a Ciência da Motricidade Humana) pode ser entendida como a “energia para o movimento intencional buscando a superação ou transcendência”.

Entender o futebol dentro desta perspectiva significa sair, por exemplo, da simplória visão de físico para uma visão mais ampliada do que é verdadeiramente humano; significa, em outras palavras, superar a visão fragmentada e substituí-la pela visão de complexidade.

Nesta entrevista exclusiva para a Universidade do Futebol, o professor Manuel Sérgio nos revela um pouco do seu pensamento sobre filosofia do esporte, futebol, relação teoria e prática, perfil necessário ao bom treinador, entre outros assuntos correlatos.

Ao responder, por exemplo, sobre o papel do filósofo no futebol, cobra a sua presença até mesmo dentro da comissão técnica de uma equipe: “No futebol, há necessidade de um filósofo que compreenda o seu lugar na equipe: o de ser racional, por entre a irracionalidade ambiente, cada vez mais despótica e absorvente”.

Ao demonstrar a relevância das ciências humanas e sociais na formação do treinador, é categórico ao afirmar que: “Saber apenas fisiologia do esforço e outras ciências exatas não bastam”. E considera que as “três qualidades essenciais para se tornar um grande treinador[são]: ser líder, ter boa leitura de jogo e saber como se comunicar a fim de motivar sua equipe”.

Universidade do Futebol – Qual a relação de Manuel Sérgio com o futebol?

Manuel Sérgio – Nasci, em Lisboa, no dia 20 de Abril de 1933, bem perto do estádio José Manuel Soares, propriedade do clube de futebol “Os Belenenses”, o primeiro campo de futebol gramado que se construiu no meu País. O meu saudoso pai era “torcedor” do Belenenses e eu, ainda criança, já o acompanhava para assistirmos aos jogos do seu (e depois, nosso) clube, no estádio que se situava a cinco minutos da nossa casa. E assim, desde os verdes anos, despontou em mim uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa, em primeiro lugar, pelos futebolistas do meu clube, e também, pelos grandes jogadores do futebol português.

Entre 1964 e 1992, fui dirigente do Belenenses, ou seja, durante 28 anos fui “agente do futebol”, o que me permitiu mobilidade pelo futebol português, como de outra forma não conseguiria.

Por fim, não posso esconder que, de 1968 até hoje, tenho sido professor de cursos universitários de motricidade humana e de esportes, onde venho lecionando “Filosofia do Esporte” e “Epistemiologia da Motricidade Humana”; neles, também encontrei alunos que triunfariam, mais tarde, no futebol profissional. Um deles já foi considerado, como treinador de futebol, o melhor do mundo! Refiro-me ao Dr. José Mourinho!

Nos anos de 1987 e 1988, recebi um convite honroso, que aceitei penhorado, na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Durante estes dois anos suaves e sem solavancos que passei no Brasil, beneficiei-me do convívio com os professores João Paulo Medina e João Batista Freire, que me ajudaram a ter do futebol uma compreensão mais rigorosa.

Deste ligeiro esforço se vê que nunca me encontrei longe do futebol, nem ele de mim. É evidente que continuo a frequentar os estádios de futebol, como espectador interessado. Os estádios e a televisão…

Entre os alunos de Manuel Sérgio que triunfaram no futebol, o maior exemplo é o técnico José Mourinho

Universidade do Futebol – Em que medida a filosofia pode ajudar no processo de desenvolvimento deste esporte?

Manuel Sérgio – O filósofo é o ser que pergunta. Só que a sua pergunta é radical. Há nela uma não aceitação das evidências fáceis, ou seja, uma exigência de ciência e de consciência. Como diz Gérard Fourez no seu livro “A Construção das Ciências”: “A Filosofia define-se por uma tradição de reflexão intelectual crítica, face aos conhecimentos espontâneos”. Como ciência, a raiz do futebol é a complexidade humana. Estudá-lo equivale a estudar uma ciência humana.

Como se sabe, defendo que esporte é uma das valências da Ciência da Motricidade Humana (CMH), ao lado da dança, da ergonomia, da reabilitação psicomotora, do jogo esportivo, do circo e outras manifestações da ludomotricidade e da ergomotricidade. O método da complexidade é, portanto, o método do futebol. No ser humano (e o futebolista é um ser humano) há que se reconhecer, em primeiro lugar, a sua multidimensionalidade e, por isso, onde tudo está em relação com tudo.

O método da complexidade liga o que está isolado, articula as ciências humanas com as ciências naturais, concebe sujeito e objeto, ciência e filosofia de modo tão complementar que tudo o que é humano comporta uma dimensão biológica e tudo o que é biológico comporta uma dimensão humana.

Quando surgiu, há 30 anos, a Ciência da Motricidade Humana foi uma crítica rigorosa ao cartesianismo vigente na educação física tradicional. A CMH proclama que, no futebol, o simples não existe. O treino deverá, por consequência, estabelecer relações, articulações entre as partes e o todo e entre as partes entre si. O treino, se posso aqui parafrasear Edgar Morin, é uma unidade global organizada de inter-relações entre ações e elementos. Assim, organiza-se um treino, ordenando as partes, ao serviço de um todo. No treino, complexidade, organização e motricidade são inseparáveis, dado que, nele, tudo é mais intencional do que mecânico.

Mas, como disse acima, não basta a ciência, é necessária também a consciência para que o futebol seja uma atividade verdadeiramente humana. Quando a Ciência da Motricidade Humana (CMH) surgiu, afirmei repetidamente que ela nasceu de um corte epistemológico e político. A CMH considera-se, por isso, anticapitalista, anticolonialista, antiracista, anticlassista, antisexista e apresenta-se como um conhecimento-emancipação, onde os que o fazem e os que o contemplam são sempre sujeitos e nunca objetos. A CMH quer ser livre e libertadora.

 

Universidade do Futebol – O senhor acredita que a visão tecnicista e/ou cartesiana, que ainda domina tantas áreas do conhecimento humano (inclusive o futebol) está com os seus dias contados? Ou ainda temos um longo caminho a percorrer?

 Manuel Sérgio – A visão tecnicista e/ou cartesiana é típica do tecnocrata. Ora, ao tecnocrata, hoje, os trabalhadores não passam de objetos a serviço da alta finança, do grande capital. É preciso um novo senso comum no futebol, onde “o homem seja para o homem o ser supremo” e por isso desta modalidade desportiva sejam erradicadas a violência, a corrupção, a especialização precoce, o doping etc.

Para o tecnocrata, só a competição e o rendimento contam. Para ele, não existe qualquer relação entre a produtividade e a ética. Por isso, o futebol nunca é uma prática saudável, quando quantifica tão-só e manipula, reifica, anestesia.

O futebol é o meu espetáculo preferido. Por isso, não o quero “repressivo” ou “super-repressivo”, usando a linguagem do velho Marcuse. Mas esta passagem do reino da necessidade ao reino da liberdade é, de fato, um longo caminho a percorrer.

Se nos referimos ao cartesianismo do treino, que apontava a fisiologia como a sua base científica, a ciência hoje não permite que se esqueça que quem faz desporto é um ser complexo. Não se nega a fisiologia. Diz-se tão-só que a fisiologia não explica a complexidade humana. O que se passa com o Barcelona atual, talvez a melhor equipe do mundo, explica o que pretendo dizer. Em entrevista ao El País (17/9/2002), Pep Guardiola afirma: “O que Cruyff nos ensinou é muito difícil de apagar. É uma cultura, antes de ser uma prática de jogo”.

Para o entrevistado, o futebol vai além da competição e do rendimento

Universidade do Futebol – O treinador José Mourinho foi seu aluno e tem grande admiração pelo senhor. Dentro de seu espírito contestador ele afirma que as aulas de filosofia ministradas pelo senhor foram muito mais importantes na formação dele do que todas as aulas de fisiologia do exercício que teve na Escola de Educação Física. Qual o conhecimento necessário para um treinador de futebol ser eficaz no seu trabalho?

Manuel Sérgio – Em primeiro lugar considero que o importante não é o que se sabe, mas sim o que se é. Aqui ser é mais importante do que saber. Um treinador que sabe muito sobre tática, técnica, treinamento, fisiologia, mas que não tem coragem para enfrentar os desafios da profissão, já está derrotado. Considero três qualidades essenciais para se tornar um grande treinador: ser líder, ter boa leitura de jogo e saber como se comunicar a fim de motivar sua equipe. Para desenvolver estas qualidades, saber apenas fisiologia do esforço e outras ciências exatas não bastam. O treinador precisa, sobretudo, conhecer o ser humano que é o atleta, dentro de suas personalidades, aliás muito diferentes uma das outras. Para isso são as ciências humanas e sociais que podem ajudar.

Manuel Sérgio aponta três qualidades para ser um bom treinador: ser líder, ter boa leitura de jogo e saber motivar a equipe

Universidade do Futebol – Em sua opinião, por que existe tanta resistência à presença da teoria, no universo do futebol?

Manuel Sérgio – O futebol, para a esmagadora maioria dos que nele se movimentam, é um mundo plenamente satisfeito de si, contente com os seus haveres e os seus êxitos. E a teoria, se o é verdadeiramente, critica, questiona, denuncia, esclarece. Donde se conclui que a teoria, para muita gente, incomoda, desperta-os do seu sono dogmático.

Universidade do Futebol – Hoje, uma equipe técnica, além dos treinadores, conta com a presença de preparadores físicos, fisiologistas, psicólogos, nutricionistas, médicos, fisioterapeutas, entre outros especialistas. O senhor acredita que no futuro teremos a presença de um filósofo, especialista em futebol, dentro das comissões técnicas inter ou transdisciplinares?

Manuel Sérgio – No futebol, há necessidade de um filósofo que compreenda o seu lugar na equipe: o de ser racional, por entre a irracionalidade ambiente, cada vez mais despótica e absorvente. O filósofo há-de ser o “invisível evidente” em todos os momentos do caminho para o êxito. Há de ser aquele que ao invés da publicidade prefere estimular a reflexão; que intenta recuperar a ciência e a consciência, na organização e no planejamento; que sabe fazer dos momentos adversos novos caminhos para a transcendência. E, como “invisível evidente”, se distinga pelo espírito de grupo, pela solidariedade e pela lealdade designadamente em relação ao treinador principal.

Universidade do Futebol – Uma das suas teses preferidas é que “para saber de futebol, é preciso saber mais do que futebol”. O que isto significa?

Manuel Sérgio –  Se o futebol é uma atividade humana e não só uma atividade física, tudo o que é humano lhe diz respeito. E não só o que é especificamente do futebol. No esporte, quem só sabe de esporte nada sabe de esporte. Por isso, estão errados os nossos cursos universitários de esporte. Só ensinam esporte e, assim, os alunos findam os cursos sabendo muito pouco sobre o esporte. É neste sentido que a Universidade do Futebol, por sua abordagem que adota a complexidade como referência, tem um importante papel a desempenhar, no Brasil e não só!

Universidade do Futebol – O desafio de todo profissional, no século XXI parece que será cada vez mais saber muito sobre a sua especialidade, porém através de uma sólida visão sistêmica e de complexidade. Como podemos nos preparar para esta demanda?

Manuel Sérgio – A cultura é a aliança do saber e da vida; assim, através do estudo pode-se viver mais. Sem cultura, não há desenvolvimento e, sem ela, as especialidades não se compreendem.

No caso do futebol, só os que o praticam e pensam a prática o podem transformar. E, para tanto, a ciência, como o positivismo a entendia, não basta. O real é irredutível a um único aspecto. O que condiciona um jogador de futebol não é só a sua condição física. Acima do mais, trata-se de uma questão de liderança, de motivação, de vontade, de realização pessoal – aspectos que não se medem como o ácido láctico! A mente também se treina e aqui está, segundo penso, o caminho do futuro. Afinal quem acredita tem mais força, mais velocidade, mais impulsão, mais resistência etc.

Universidade do Futebol – O futebol é mais arte ou mais ciência?

 Manuel Sérgio – É tanto arte como ciência. Contemplar o Kaká, ou o Messi, ou o Cristiano Ronaldo em busca de um paradigma que nos leve a explicar ou a compreender a motricidade daqueles extraordinários futebolistas estamos em pleno campo científico.

Se a beleza emerge da motricidade daqueles (ou outros) atletas, a razão estética pode surgir em nós. Na motricidade humana, há sempre ciência e arte. Depende dos olhos como a vemos. Sabemos desde Bachelard que há arte na pesquisa científica. Arte e ciência não estão assim tão longe uma da outra.

A razão científica provoca o progresso; a arte põe descontinuidade, na unidirecionalidade do progresso. Ainda lembrando Bachelard, a razão recomeça e a imaginação começa. Recordo um jogo-treino da seleção brasileira, em Lisboa, antes do Mundial de 1958. No Garrincha, fisicamente tudo parecia errado e foi, para mim, o melhor jogador em campo. Todo ele era imaginação e arte. E é o sujeito, a pessoa humana, o valor fundante do esporte. É a partir daqui que começa o futebol e não antes.

Abraços.

Até !!!

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