MOVIMENTOS PODEROSOS – a importância das atividades esportivas para o bem-estar físico, psicológico, emocional e para a inteligência.

* Texto em parceria com a Revista de Psicologia (Grandes Temas do Conhecimento – Especial Inteligência, Setembro de 2017), Editora Mythos.

É SABIDO QUE PRATICAR EXERCÍCIOS FAZ BEM PARA A SAÚDE FÍSICA E PSICOLÓGICA E OS GANHOS DISSO SÃO AMPLAMENTE DIVULGADOS. PORÉM, A REALIDADE É QUE AS PESSOAS NO BRASIL E NO MUNDO ESTÃO SE TORNANDO CADA VEZ MAIS OBESAS E OS GASTOS
PÚBLICOS EM DECORRÊNCIA DESSA DEMANDA SOCIAL VÊM AUMENTANDO EXPONENCIALMENTE, SEM QUE TENHAMOS CONSCIÊNCIA DISSO.

Diversos tipos de câncer, doenças cardíacas, disfunções metabólicas, problemas nos ossos e articulações, transtornos emocionais, entre outros, podem ser causados ou agravados em decorrência da obesidade e do sedentarismo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza que a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não
apenas a ausência de doença. Partindo dessa premissa, para se ter saúde é necessário bem estar. A Psicologia Positiva, através de Seligman (2011), define a teoria do bem-estar contendo cinco elementos: emoção positiva, engajamento, sentido, relacionamentos positivos e realização.

Correr e lutar para se defender eram maneiras concretas que garantiam a
sobrevivência em tempos primitivos do homem. O movimento era natural e corriqueiro, mas com a evolução da sociedade e da tecnologia perdemos essa expressão. Exercícios de resistência moderados têm efeito positivo não apenas sobre o corpo, mas também sobre o cérebro. A atividade física estimula, estabiliza e protege o condicionamento mental. Nos últimos anos, pesquisadores têm esclarecido os mecanismos desse efeito: várias substâncias que facilitam a circulação sanguínea e a reorganização neuronal revelaram-se benéficas para o cérebro. Elas são produzidas de forma intensificada durante atividades musculares.
Um estudo de Lisa Weinberg mostra que realizar exercícios físicos intensos durante 20 minutos por dia pode melhorar a memória episódica em adultos em até 10%. Nas crianças entre 9 e 10 anos que estão em melhor forma física, possuem mais matéria branca em
seu cérebro, isso quer dizer que essa parte do sistema nervoso central é a responsável por transmitir os sinais nervosos de uma região do cérebro para outra e quanto mais compacta for, mais rápida e eficiente será a atividade neuronal. Dançar protege o cérebro do envelhecimento,
pois é um exercício físico que contribui com a interação social e auxilia a reduzir a sensação de
estresse e promover o bem-estar. A dança de salão pode ser um excelente complemento terapêutico para pessoas deprimidas e ansiosas, por exemplo, que não aderem a atividades físicas convencionais em academias de ginástica.

A prática de atividades não tão difundidas em nosso país, como yoga e meditação, são amplamente pesquisadas, auxiliando no bem-estar físico e psicológico de seus praticantes. Alguns estudos até relacionam a meditação com a melhora no desenvolvimento cognitivo, cerebral e emocional de pessoas de diversas faixas etárias.


“Muito embora atualmente a meditação seja ensinada e praticada separadamente do yoga, especialmente as meditações budistas, é importante lembrar que esse conjunto de diferentes técnicas contemplativas nasceu a partir da prática do yoga e sempre fez parte deste. Na verdade, a meditação é o pináculo do yoga e a técnica mais importante de todas. As técnicas meditativas originaram-se na Índia há mais de 4 mil anos e sempre existiram de alguma forma em todas as maiores religiões e organizações seculares. Existe diversos tipos de meditação, mas, em pesquisas médicas, duas classes são mais estudadas: a concentração e a chamada meditação mindfulness. Mindfulness, um nome para o qual não há tradução fiel em português (alguns autores usam a expressão “atenção plena”) é baseada em técnicas budistas e define-se como uma forma específica de atenção – concentração no momento atual, de modo intencional e sem julgamento. Significa estar plenamente em contato com a vivência do momento, sem estar absorvido por ela e sem qualquer crítica ou juízo de valor.” (Vorkapic, Rangé, 2013, p. 26-27).

A educação física escolar tem um papel fundamental na formação e no desenvolvimento de crianças e jovens, não só do ponto de vista físico, mas também intelectual. A prática de educação física escolar é negligenciada na maioria das escolas públicas do país: muitas sequer possuem quadra poliesportiva. Em muitos colégios particulares, esse fenômeno também é comum em decorrência do ensino visando exclusivamente o ingresso no vestibular. Alguns estudos indicam que crianças que se exercitam com frequência de pelo menos duas vezes na semana têm melhores resultados cognitivos na escola do que crianças sedentárias. (Revista Veja, nov./2014).
A prática esportiva pode ser um excelente caminho para o desenvolvimento humano e pessoal, a convivência em grupo, a disciplina, a aceitação de regras, a superação, a competição saudável e a tolerância à frustração. Muitos valores éticos e morais podem ser aprendidos através do esporte, porém, a mediação dessas situações por pessoas treinadas adequadamente é fundamental. Nesse sentido, a organização brasileira Atletas pelo Brasil (2014) descreveu, em
carta recente aos presidenciáveis, os benefícios do esporte na escola:

“Na educação, o esporte vem trazendo resultados surpreendentes. O esporte e a atividade física resultam  em menos faltas a aulas e mais pontuação em testes cognitivos. Em projeto de esporte nas escolas, em sua meta de legado das Olimpíadas, a Inglaterra implantou o esporte de qualidade em 450 escolas britânicas e mediu o impacto. O resultado mostrou melhoria no aprendizado em matérias como inglês e matemática, além de melhorias pessoais e sociais, como melhor autoestima, trabalho em equipe, cooperação e responsabilidade. No entanto, no Brasil, isso não é prioridade. Somente 30% das escolas de educação básica têm quadras e não há professores de educação física em todas as escolas, o que faz o país não aproveitar da forma adequada o enorme potencial do esporte na educação.”

Alunos que se exercitam mais se dão melhor em testes e tiram melhores notas do que colegas que são sedentários. Várias dessas comparações entre os que gostam de se exercitar e outros mais ociosos apontam na mesma direção: os ativos têm melhores resultados em quesitos como atenção, memória e capacidade intelectual, conseguem reter mais informações, processando-as melhor e demorando mais a se cansar. Exercícios físicos aeróbicos estão associados a uma melhor cognição em jovens. É o que mostrou um estudo realizado pela Universidade de Gotemburgo, com mais de um milhão de homens, entre 15 e 18
anos, publicado na última edição da Proceedings of the National Academy of Sciences. Também é sabido que idosos que se exercitam de maneira regular consomem, em média, 34% menos remédios do que as pessoas sedentárias.

O dado, de uma nova pesquisa da Unifesp, reforça um conceito que vem somando evidências: o de que exercícios podem atuar como medicamentos, tanto prevenindo algumas doenças quanto ajudando no tratamento de outras. E, como os remédios, precisam de prescrição (Folha de S. Paulo, 12/08/2010). Segundo este mesmo estudo, a caminhada realizada por idosos tem efeitos em seu estado mental, reduzindo a ansiedade e diminuindo o risco de depressão, especialmente quando realizada em grupo, pois auxilia na sociabilidade. Além disso, ajuda na redução do uso de medicamentos: antidiabéticos, anti-hipertensivos e de drogas para o controle do colesterol pela metade em quem anda de 15 a 30 quilômetros por semana. Exercícios melhoram a sensibilidade à insulina, ou seja, o organismo consegue diminuir a taxa de glicose em circulação, o que ajuda a prevenir e controlar o diabetes. Há particularmente dois efeitos importantes do exercício sobre o sistema nervoso: estimula o crescimento vascular e o neuronal. Atividades moderadas, como uma simples caminhada, podem diminuir em 73% o risco de demência senil vascular. As mulheres que caminham com frequência têm um risco 23% menor de desenvolver câncer de mama. Além disso, caminhar diminui os níveis do LDL (o “colesterol ruim”) e aumenta os de HDL (o “bom” colesterol), reduzindo o risco cardiovascular. Também reduz as chances de pedras na vesícula. Na verdade, o exercício e as experiências associadas a ele influenciam posturas e hábitos que afetam o caminho a ser seguido na vida. Por isso, a diversão deveria estar em primeiro lugar: uma atividade escolhida por vontade própria e divertida, que gere experiências de sucesso. Isso estimula crianças efetivamente e também os adultos na adesão à prática de atividades esportivas e mudanças de hábitos.

Para o neuropsiquiatra de Harvard, John Ratey,

os exercícios regulam ansiedade e níveis de estresse, a habilidade de perseverar e superar as frustrações que o processo de aprendizado eventualmente produz, criam o ambiente certo para nossas cem bilhões de células nervosas, fabricando mais neurotransmissores e receptores para registrar novas informações; e promovem o surgimento de novas células no cérebro, um processo chamado neurogênese. As pessoas estão gradualmente reconhecendo o fato de que a atividade física é uma terapia auxiliar útil para desordens mentais e médicas. Hoje, o primeiro tratamento para a depressão ou a ansiedade são exercícios regulares. Há dez anos a Câmara dos Comuns do Reino Unido disse que os exercícios deveriam ser o tratamento primário para a depressão, então, eles estão na mente das pessoas e começando a ter aceitação na comunidade médica”.


Certamente muito pouco do que foi descrito acima tem sido levado em consideração pelo poder público. Pelo que consta até o momento, creio que, infelizmente, perdemos uma grande oportunidade de transformação social através do esporte, o prometido legado dos Jogos Olímpicos do Rio 2016 não se concretizou para os atletas de elite e muito menos para a massa popular, com a promoção e prevenção da saúde de cariocas e brasileiros em geral, através de políticas públicas de incentivo a participação em atividades esportivas. Pagaremos a conta duplamente, de parte das instalações esportivas que foram financiadas pelo Estado e da saúde coletiva em decorrência da insalubre inatividade física e sedentarismo.

No caminho contrário do bem-estar, há casos extremos onde a prática de atividades esportivas faz mal para a saúde. Existem pessoas que passam dos limites, podendo ser diagnosticadas com Vigorexia, que é o nome dado para quem possui dependência em exercícios físicos. Sintomas dessa patologia são identificados quando uma pessoa deixa de se relacionar socialmente, evita encontros sociais com amigos e familiares para se exercitar, está sempre extremamente preocupada com o que come e com dietas para turbinar o rendimento, utiliza anabolizantes e diuréticos, exagera nas horas em que se exercita, entra em overtraining, se lesiona, se torna um fanático por essas atividades, se irrita, fica ansioso, agressivo quando não consegue se exercitar, acredita que necessita de mais tempo de seu dia para dar conta de sua necessidade de treinar. O grande problema é que o diagnóstico é difícil, já que é uma patologia que ainda não está descrita especificamente nos manuais médicos, como o DSM e a CID -10. Não existem o estigma e o preconceito envolvendo a pessoa com vigorexia, é até socialmente aceita uma pessoa que se exercita em demasia em comparação com uma pessoa que é sedentária e obesa, até porque existe uma forte representação cultural pelo culto à beleza, à vaidade e à estética. Os circuitos cerebrais e fisiológicos acionados nos dependentes de exercícios e nos dependentes químicos são muito similares.

Quer manter-se ativo, promover o bem-estar, sua saúde mental, controlar suas emoções e desenvolver sua inteligência? A solução parece bem simples. Para tanto, não é necessário nenhum esforço absurdo ou tortura, pelo contrário: o limiar da ‘dose salutar’ é surpreendentemente baixo. Incluir passeios a pé ou de bicicleta na rotina (quase) diária já cumpre o objetivo. Como dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “os grandes pensamentos resultam da caminhada”. Ele costumava buscar inspiração caminhando. Os filósofos gregos também ensinavam seus discípulos caminhando e “filosofando”. O poeta Romano Juvenal também tinha razão quando disse: Mens ana in corpore sano (Mente sã em corpo são).

 

Referencias:

Revista Mente Cérebro, ano XVII, número 211. Agosto 2010.http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/02/quer-ser-mais-inteligente-corra.html

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u662790.shtml

http://oglobo.globo.com/saude/exercicios-regulares-para-deixar-cerebro-em-forma-4764664

http://www.psyciencia.com/2013/07/09/actividad-fisica-como-mejora-la-capacidad-cognitiva-y-otros-beneficios/

http://veja.abril.com.br/noticia/saude/exercicio-fisico-melhora-desempenho-escolar-diz-estudo

http://doutorjairo.blogosfera.uol.com.br/2014/06/23/jogar-bola-pode-melhorar-o-desempenho-na-escola-segundo-estudo/

http://atletaspelobrasil.org.br/carta-aberta-aos-candidatos-a-presidencia/

http://www.thesportinmind.com/articles/study-skills-making-time-for-exercise-might-help-your-academic-performance/

http://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2014-10-20/esto-es-lo-que-pasa-en-tu-cerebro-tras-hacer-20-minutos-de-ejercicio_237138/#

Benefícios físicos e psicológicos da prática de exercícios

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Abraços!
Até!!!

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