Racismo no Esporte: a Psicologia tem o dever de ser Antirracista.

Episódios recentes em jogos de futebol  novamente chamaram a atenção da opinião pública mundial sobre o racismo, a intolerância e a xenofobia nos estádios.  Os atletas brasileiros, Taisson e Dentinho foram as novas vítimas na Europa.

Recentemente por lá tiveram os casos envolvendo o italiano Mario Balotelli e a agressão a Romelu Lukaku,  atleta belga. Além disso, no mês passado, houveram insultos aos jogadores negros da Inglaterra no jogo contra a Bulgária em Sofia pelas eliminatórias da Eurocopa. De efetivo para coibir, punir e educar torcedores racistas pouco se vê, os episódios se repetem, se avolumam e as atitudes da Fifa, Uefa, confederações de futebol pelo mundo continuam inofensivas. O técnico da seleção búlgara e um dirigente da confederação de futebol local pediram demissão após a atitude de seus torcedores, até o momento nada além disso.

Reação contraria aos comportamentos racistas e xenófobos na Europa  vieram através dos torcedores do Celtic da Escócia. Se posicionando diante dos torcedores neofascistas da Lázio que frequentemente manifestam sua ideologia racista nos estádios de futebol. Criaram uma bandeira para contra-atacar. Ainda um ato isolado. 

 

Sou a favor da reação das vítimas de racismo, não temos o direito de  julgar quem é agredido com ofensas sistemáticas. A grande maioria dos atletas brasileiros que sofrem racismo dificilmente se manifestam. Talvez, por medo de represálias, de possíveis críticas e até por ‘normalizar’ esse comportamento. O caso do goleiro, Aranha, foi um marco por aqui. 

Vejo como um posicionamento positivo a reação de Taisson, a burocracia do futebol puniu a vítima de agressão ao expulsá-lo de campo.  Quem sabe se todos os atletas negros se rebelassem ao sofrer insultos raciais e seus colegas brancos colaborassem ao invés de minimizar os fatos, talvez pudessem ajudar a mudar algum comportamento vindo das arquibancadas, pois esperar por dirigentes o protagonismo da mudança não irá acontecer. 

“Amo minha raça, luto pela cor, o que quer que eu faça é por nós, por amor. Jamais irei me calar diante de um ato tão desumano e desprezível. Minhas lágrimas foram de indignação, de repúdio e de impotência. Impotência por não poder fazer nada naquele momento. Mas somos ensinados desde muito cedo a sermos fortes e a lutar. Lutar pelos nossos direitos e por igualdade. O meu papel é lutar, bater no peito, erguer a cabeça e seguir lutando sempre! Em uma sociedade racista, não basta ser racista, precisamos ser antirracistas.”  Desabafou Taisson em seu instagram. 

Racismo no Brasil 

O racismo no país é estrutural, queira você acreditar ou não. Mesmo que o senhor que está sentado atualmente na cadeira da presidência e seus seguidores fieis minimizem esses acontecimentos, alegando a existência apenas de casos isolados. O racismo no Brasil é um dos mais cruéis do mundo. Fruto do nosso passado escravagista que perdurou por quase 400 anos e que nunca foi reparado pelo poder público após a ‘abolição’.

Todos sabemos (ou deveríamos saber) que a população negra do país é a mais vulnerável em todos os sentidos. A mais pobre, a menos escolarizada, a que mais morre, a que mais sofre violência (física ou psicológica), a que mais é presa, a que menos tem acesso a saúde. No caso das meninas e mulheres negras os índices são ainda piores, além de tanta vulnerabilidade, elas sofrem mais abusos, estupros, gravidez na adolescência e violência doméstica.  Isso não é por acaso. Isso é sintomático. Isso é reflexo de nossa sociedade extremamente desigual.  Esses dados vem de pesquisas recentes do IBGE e do Atlas da Violência – IPEA, 2019.

Eu não sei o que é realmente o racismo, por ser branco eu não passei por isso, nunca senti na pele o que as pessoas de pele negra sentem quando são vítimas dessa chaga que nos assola. Talvez eu possa imaginar, só talvez. Talvez eu possa compreender, talvez não. Eu posso ter compaixão, eu posso sentir raiva de quem oprime, e empatia por quem sofre, mas eu nunca poderei entender o que é ser vítima de racismo num país como o nosso. Simplesmente, porque ao nascer branco já sou privilegiado pela cor da minha pele.  Devemos enfrentar o racismo, essa é uma luta de todos os brasileiros, não só do movimento negro. Só podemos avançar rumo a civilidade se encararmos o racismo e a desigualdade social com coragem e com políticas reparativas de Estado, não de governos. 

Heróis de todos os cantos do mundo

No esporte os atletas negros são geralmente os principais protagonistas. Alguns se tornaram lendas, mitos, reis, orgulho de nações, inspiração para a sociedade, levando o desempenho físicos e psicológicos aos limites da humanidade.

O que dizer do silêncio dos puritanos nazistas diante dos feitos de Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936? E da reverência mundial ao jovem, Pelé, na Copa do Mundo de 1958? O que seria do basquete americano sem Michael Jordan, Kobe Bryant e tantos outros astros negros?

Muhammad Ali foi para muitos o atleta do século, principalmente, pelos seus atos fora dos ringues por sua atitude a favor dos excluídos. Atualmente não faltam exemplos de grandes ídolos em suas modalidades, Tiger Woods é uma lenda viva no golfe. Serena Williams no tênis. A ginástica artística tem em Simone Biles um ícone para garotas negras que desejam se espelhar em sua trajetória. 

O que seria do nosso futebol feminino sem Marta Silva?  O que seria do atletismo sem a irreverencia, talento e carisma de Usain Bolt? E o empoderamento de Allyson Felix? E Samuel Wanjiru? Épico e recordista da maratona em todos os tempos. O que dizer de Lewis Hamilton? Único negro e atualmente hexacampeão mundial de Formula 1. Brilhante!

Nesse sentido, o exemplo da seleção de rugby sul-africana é singular. Pode o raio cair três vezes no mesmo local? No caso, dessa seleção parece que sim. Quando o atleta, Siya Kolisi,  levanta o troféu de campeão de uma Copa do Mundo de Rugby, a disputa esportiva é secundária. Siya Kolisi é o primeiro capitão negro da África do Sul em uma Copa do Mundo. O rugby foi a modalidade esportiva símbolo do racismo legalizado no país, o Apartheid. O filme “Invictus” conta a história do primeiro título da África do Sul em 1995, baseado no livro, “Conquistando o Inimigo”, do jornalista,  John Carli. Um ano após o fim do regime racista, quando o então presidente Nelson Mandela  ao lado do capitão François Pienaar comemorou a conquista em casa dessa façanha extraordinária. Naquela ocasião a seleção do país era formada apenas por jogadores brancos, a exceção era Chester Williams, falecido em setembro último. (Tive a honra e o prazer de me encontrar com essa lenda do rugby quando atuava pelo Instituto Rugby para Todos. Chester, nos visitou e realizou com as crianças e jovens daquele projeto uma oficina esportiva e bate papo. Inesquecível).  As oportunidades seguiram raras para os negros na seleção sul-africana. No segundo título do país, em 2007, havia ainda poucos negros, destaque para o Bryan Habana, um ídolo de todo o país. A África do Sul campeã de 2019, tem mais jogadores negros do que as conquistas anteriores. No discurso aos fãs no estádio, no Japão, o capitão, resumiu bem: “nós viemos de diferentes origens, somos de diferentes raças. Nós temos muitos problemas em nosso país, mas viemos com um objetivo”. Viva a diversidade. Viva o esporte que nos ensina sempre. 

Roger Machado, treinador de futebol, comentou em recente entrevista:

“Como jogador não sofri barreiras. O racismo estrutural entende que, como jogador, eu estaria num lugar de direito. Ao participar como agente desse espetáculo, nos tornamos mais brancos, o que nos permite no máximo circular em ambientes aos quais normalmente teríamos pouco acesso. Já como treinador, por exercer um lugar de liderança e gestão, em alguns momentos percebo que não me concedem o direito de estar ali. O racismo estrutural não vê, ou não admite, que somos capazes de ocupar atividade que exija competência intelectual para desenvolvê-la. A prova mais evidente da existência do racismo estrutural é a quase inexistência de ex-atletas negros em importantes atividades extracampo, digamos assim. Mas a afirmação não vale para ex-atletas brancos, que circulam com desenvoltura por quase todas as áreas. Para os ex-atletas negros o limite máximo, e os casos são raros, tem sido à beira do campo. Fora dali o negro não é denunciado pela competência ou incompetência, mas pela cor.”

Narrador Julio Oliveira falar sobre racismo

Chester Williams

Racismo no esporte de base

Se cenas racistas são frequentes em estádios de futebol com dezenas de câmeras, o que podemos imaginar do esporte na base? Alguém acredita que é diferente? Tenho certeza que é muito pior.

São frequentes os insultos racistas em equipes de base, Já presenciei algumas vezes em supostas ‘brincadeiras’ , por parte de jovens atletas e de membros da comissão técnica. Aqueles que vi ou soube, consegui intervir minimamente. Nesse aspecto, programas ou palestras de psico-educação são fundamentais para ensinarmos a convivência e a tolerância com as diferenças raciais. É importante educar para a prevenção aos comportamentos inadequados, o respeito as pessoas, as regras de convivência social. O esporte é uma ferramenta subutilizada, inclusive, para esses acontecimentos. Poderia ser um instrumento de educação dinâmico e ativo, pronto para respostas positivas nesse sentido, mas não é o que acontece na grande maioria das instituições. 

  As frases abaixo foram de meu conhecimento ao longo da minha carreira atuando com esporte na base:

não posso nem brincar com o cabelo da menina que ela já fica com raiva? Só porque disse para ela alisar o cabelo, comprar um shampoo para melhorar o visual é motivo para dizer que sou racista?“.

Queimada é você, fulana, olha a cor da sua pele!”.

“Fulano, só você que não voltou bronzeada da praia nos treinos em Recife? Puts, esqueci que você não precisa passar bronzeador, porque sua melanina já é altíssima“.

“Você é negro, é forte, não pode amarelar. Honre a sua cor.”

” Você realmente acha que fora daqui terá chance? O esporte é sua única oportunidade de ser alguém na vida”. 

Para Maria Jesus Moura:

“Na demanda que as pessoas negras trazem nem sempre elas nomeiam o que é o racismo, mas o profissional que está ali lhe atendendo para ser considerado antirracista precisa nomear, não podemos permitir que uma pessoa sofra anos a fio por algo que ela não consegue entender. Nós, psicólogos/as, precisamos ajudar essas pessoas a compreenderem o que é e quando foram vítimas de uma ação racista, mesmo que a pessoa não fale que é negra, que aquilo não é racismo, que não nomeie, mas a forma como ela traz os elementos e o lugar dela no mundo se ressalta para o profissional que tem essa sensibilidade”.

Por mais que seja um assunto complexo, o racismo deveria estar na pauta de todas instituições esportivas, principalmente, aquelas que se intitulam como formadoras de pessoas ou atletas. 

Por uma Psicologia Antirracista

Quando eu me dei conta de que a Psicologia também poderia estar sendo um tanto convivente, omissa, negligente e contribuindo com a cultura racista ? Só quando atendi em meu consultório particular a primeira pessoa negra. Simplesmente aconteceu somente após 6 anos de pratica em psicoterapia.  Naquela ocasião (2012), a minha cliente (solicitei autorização para contar sobre esse episódio sem identificar sua identidade). Em uma de suas primeiras falas me indagou se eu ‘poderia tratar sobre o seu sofrimento racial’, já que ela havia passado por outros colegas (mais de 3 psicólogos de diferentes abordagens) e os mesmos não conseguiram, segundo o seu relato, compreender suas dores psíquicas, seu sofrimento emocional, suas sequelas e cicatrizes por ser mulher negra. Aquilo para mim foi um soco na cara, como que um lugar que é justamente para acolhimento das dores da alma, dos dramas humanos, não tinha sido suficientemente bom para o que ela estava procurando? Expectativas irrealizadas que poderiam comprometer sua saúde emocional. 

Confesso que não esperava inicialmente, algo tão assertivo e pontual como me foi questionado. Certamente que eu não recusei seu pedido de ajuda. Fui honesto, mas tive medo. Receio de que talvez eu também não estive a altura de ‘tal demanda’, já que antes de mim outras pessoas falharam com ela. Para buscar um processo terapêutico geralmente é um caminho pouco facilitado por tudo o que ainda envolve a Psicologia como ciência e profissão no imaginário da população.  Ainda existe preconceito em obter apoio psicológico como algo natural.  Isso para a população negra é um complicador maior.

Eu achava que sabia o que era o racismo da perspectiva da minha cor e do recorte da minha classe social. Sempre soube que havia algo errado e consequências negativas na nossa condição social com relação a população negra, mas estando do outro lado da história. Tivemos uma jornada que durou um bom tempo e pude aprender e ampliar meu olhar para essa perspectiva. Isso não tem preço.

Percebi que na minha formação acadêmica, pouco ou quase nada tive sobre os efeitos do racismo na saúde mental da população negra. Relembrei que na universidade onde estudei não chegava a 10 os colegas negros em todo o curso do Psicologia durante meus 6 anos de graduação. Posteriormente, nas pós graduações em Psicologia Clínica e Psicologia do Esporte não havia nenhum negro entre os colegas que concluíram os cursos. Infelizmente, tive apenas 2 professores negros em todo o ensino superior. Isso é sintomático. Isso não pode ser desprezado. Talvez, reflita por um lado a falta de empatia de colegas com a minha antiga cliente.

“É importante o fortalecimento de uma psicologia que sabe que o racismo existe porque a grande maioria dos psicólogos são brancos, classe média, não entendem ou não querem entender que o racismo humilha e adoece”, declara, Conceição Costa. 

Atualmente, na Psicologia do Esporte, conheço pessoalmente apenas 6 psicólogos esportivos negros. Sendo que trabalhei diretamente com dois deles em projetos passados.  Tudo isso para dizer que, inclusive, quem supostamente cuida da saúde mental dos atletas que em grande maioria são negros, existe pouca representatividade.  A   tese de    Doutorado de Marcio Antonio Tralci Filho  aborda esses assuntos. 

De acordo com Maria Jesus Moura:

“Falta à instituição de ensino compreender que quando se prepara um profissional, prepara-se ele para tudo e para todos. Sendo assim, não tem como pensar uma psicologia que não seja antirracista, porque o racismo provoca sofrimento e a psicologia não pode se aliar a nenhum tipo de ação que provoque isso”.

“Existem os profissionais que estudam, se aproximam, que compreendem essa especificidade da vida negra em um país que é racista e as diversas formas que esse racismo se apresenta, então fica mais fácil para essas pessoas se autodenominarem antirracistas, porque elas estão com a escuta preparada.”

Nós psicólogos, deveríamos ter um sério compromisso com o antirracismo na psicologia brasileira. Quero ser um aliado dessa causa que é fundamental para uma sociedade mais justa e humana.

 

Referências:
https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2019/11/12/carta-para-taison.htm?fbclid=IwAR0OxHHAAJotAnPQWoWpuctXQqP2c9ZkxGwAkTV9jFwwq9Z6agGUMu9kQoc

https://theintercept.com/2019/11/13/entrevista-negar-e-silenciar-e-confirmar-o-racismo-diz-roger-machado/

https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/sobre-futebol-politica-taison-racismo-e-tudo-mais/

https://www.geledes.org.br/6-coisas-que-pessoas-aliadas-da-luta-anti-racista-nao-podem-esquecer/

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/cida-bento/2019/11/reivindicacoes-do-movimento-negro-beneficiam-outros-segmentos-na-educacao.shtml

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2019/11/17/interna_diversao_arte,806724/laurentino-gomes-e-preciso-enfrentar-de-forma-corajosa-o-racismo.shtml

Psicologia antirracista: a escuta e compreensão no combate à discriminação racial

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Abraços…

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