Reflexões sobre a Copa 2018

Findada a Copa do Mundo de Futebol 2018, gostaria de tecer algumas reflexões sobre essa competição. Não tenho interesse em me adentrar nos detalhes táticos-técnicos da modalidade, pois não tenho competência para tal. Deixo isso para os especialistas no assunto. Meu olhar será em outras esferas!

Muitos acontecimentos captaram a minha atenção durante o mundial, dentre eles a convicção de que, por mais clichê que pareça, o futebol está cada vez mais coletivo.  A fase do craque fora de série que irá “carregar” nas costas o time, acabou, ou melhor será mais difícil de ocorrer. Essa tendência podemos observar desde 2006, quando a Itália foi campeã, repetindo-se em 2010, com a Espanha, 2014 com Alemanha e agora em 2018 com a França. O conjunto forte se destacou muito mais do que o super craque, observamos o mesmo comportamento entre todas as seleções semifinalistas, Bélgica, Inglaterra e na vice-campeã, Croácia. O craque sozinho não faz mais verão no futebol contemporâneo. Um grupo coeso de atletas dentro e fora de campo vêm sendo uma tendência marcante nos últimos mundiais. Um conjunto de “operários” em busca de um objetivo em comum têm valido mais do que um time que jogue em função de sua maior estrela.

Outra característica positiva é com relação às nacionalizações de jogadores de origens diversas, nascidos em outros países ou filhos de imigrantes. A vitória da França coroa esse processo, de seleções multirraciais na Europa, algo semelhante também acontecendo na Bélgica, Inglaterra, Alemanha e Portugal. Na Tunísia, ocorreu o inverso, alguns filhos de tunisianos imigrantes, representaram a nacionalidade de seus pais. Quem sabe o futebol possa ser um meio para diminuir o preconceito, a xenofobia e a tolerância com imigrantes e refugiados na sociedade. O mundo se globalizou e o esporte também é reflexo disso.

O futebol ainda é o sonho de ascensão social mais forte para os jovens em todo o mundo. Para muitos um dos poucos caminhos.

“No Brasil, assim como em várias partes do mundo, as categorias de base estão repletas de histórias de meninos pobres que veem o futebol como o trampolim para um salto na pirâmide social. Garotos que saem cedo de casa, abrem mão do convívio com a família – isso quando já não foram abandonados por ela –, e de aproveitar a adolescência para se converter em mercadoria na mão dos clubes, que os confinam em concentrações sob a tutela de empresários sedentos pelo lucro de uma futura negociação.

Para se tornar profissionais consagrados, jogadores têm de superar as barreiras da pobreza, o filtro implacável que deixa a maioria pelo caminho, sem formação escolar nem perspectiva de futuro, e a ganância de uma indústria que exige sua juventude em troca de uma chance de triunfar com a bola nos pés. Escolhas? Apesar das ilusões cativadas pelo futebol, muitos dos que demonstram algum talento em campinhos de terra batida na infância são praticamente empurrados para esse trajeto, seja pela família, que aposta todas as fichas da ascensão social no prodígio da casa, seja por agentes convictos de terem encontrado a nova mina de ouro.” (Breiller Pires, El País, 10/07/2018).

Outro aspecto que está se consolidando nos ciclos entre Copas, são os projetos de base de algumas federações nacionais (França, Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Espanha, por exemplo) possuem seus centros de treinamento, cada vez mais com resultados consistentes, envolvendo ciência esportiva e infraestrutura para lapidar e descobrir talentos.  Algo que nosso país é muito pouco realizado pela CBF.

O mundo conheceu um pouco mais a ativista russa pelos direitos femininos, Alena Popova, num dos países mais perigosos para as mulheres. O grupo punk Pussy Riots invadiu a final da Copa para protestar contra a política de Putin, a banda feminista famosa por criticar o governo russo, quer mais liberdade de expressão e direitos as mulheres e grupos LGBT. Boçais de muitas nacionalidades, inclusive, brasileiros, assediaram jornalistas, mulheres e crianças russas em vídeos de cunho sexual causando repercussão nacional e internacional muito negativa. Lamentável ! Um aspecto positivo para o empoderamento das mulheres foi a presença de torcedoras iranianas frequentando os estádios rompendo a proibição imposta em seu país.

A seleção brasileira de futebol teve uma atuação abaixo das expectativas criadas em torno do time, de seus principais jogadores e do treinador Tite, após a classificação nas eliminatórias. Creio que a melhor atuação possa ter sido justamente no jogo em que foi eliminada. Onde criou-se as melhores possibilidades e não se obteve êxitos por diversos fatores. A seleção no país sempre é cotada para estar entre as favoritas, por aqui ser supostamente “o país do futebol”, mais vezes vencedor. Mesmo diante dos últimos tropeços, fracassos, traumas, preparações inadequadas em eventos passados e de todos os problemas enfrentados pela politica da CBF. A alta expectativa dos brasileiros talvez se dá por sermos um país de monocultura futebolística e de uma mídia esportiva extremamente ufanista e pouco crítica em sua maioria.

Houveram psicólogos do esporte trabalhando em algumas equipes nesse mundial, pelo que foi divulgado na mídia, na Alemanhã, no México, na Suécia e na Inglaterra. Seria leviano de minha parte afirmar que um psicólogo sozinho ganha um campeonato, porém, não é novidade que utlizar o conhecimento dessa ciência pode ser um diferencial para equipes e atletas estarem focados, equilibrados e emocionalmente preparados para as demandas psicológicas que uma competição dessa magnitude propicia. Faltou a seleção do brasil trabalhar esse aspecto com tempo e seriedade, principalmente, após o 7×1 e toda a expectativa criada em cima desse grupo e comissão técnica.  As derrotas podem se transformar em caminhos para aprendizado e evolução.

Equipes mentalmente fortes conseguem trilhar o caminho do sucesso com mais vantagem competitiva. Talvez a equipe mais resiliente ao longo da competição tenha sido a Cróacia, conseguindo superar três prorrogações e duas decisões por pênaltis. Porém, a equipe com mais equilíbrio entre os fatores de desempenho (técnico-táticos, físicos e psicológicos), foi com justiça à França, campeã!

Em quatros anos o mundo vai parar novamente para ver a Copa do Catar, primeira no Oriente Médio. Promessa de novas surpresas, muitas emoções, sentimentos difusos e novos protagonistas dessa jornada incrível que é o futebol.

 Referências:

http://www.osaopaulo.org.br/noticias/fator-psicologico-pode-ser-decisivo-para-vencer-a-copa

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/10/deportes/1531176149_973978.html

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/07/triunfo-croata-expoe-nacionalismo-e-constrange-russos.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/07/assedio-na-copa-lanca-luz-sobre-violencia-espalhada-contra-mulheres-russas.shtml

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/13/deportes/1531515767_875194.html?id_externo_rsoc=whatsapp

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/07/15/Qual-o-saldo-esportivo-da-Copa-do-Mundo-da-R%C3%BAssia?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#Echobox=1531677842

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Abraços!!!
Até …

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2 ideias sobre “Reflexões sobre a Copa 2018

  1. Humberto Martins Afonseca

    Queria saber como a psicologia esportiva agiria em casos de critica, especialmentr da imprensa , em relação a um atleta durante a competição, em um outro país. Digo isso como exemplo o Neymar, que foi muito criticado desde o primeiro jogo e de várias formas que vão desde o cabelo até o choro ao final do jogo contra a costa rica. Ainda mais que tem acesso a tudo por meio da internet?

    Responder
    1. Rodrigo Scialfa Falcão Autor do post

      Um dos tipos de trabalho é fortalecer o individuo para que conseguir gerenciar estresse e ansiedade e poder se blindar desse tipo de crítica que é inevitável.

      Grato pela pergunta.

      ABS

      Responder

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