Saúde Mental: o legado dos Jogos Olímpicos de Tóquio


Findado os Jogos Olímpicos de Tóquio em meio a pandemia do coronavírus e o receio do mundo.
Momentos marcantes e emocionantes para os amantes do esporte. Dentre os possíveis legados desses Jogos Olímpicos, a saúde mental é um dos destaques.

Saúde Mental: o legado dos Jogos Olímpicos de Tóquio

O mundo talvez tenha despertado para algo que nós psicólogos do esporte já gritamos a décadas. A saúde mental é tão fundamental para os atletas quanto suas capacidades físicas e técnicas. A regulação emocional em competições dessa magnitude é primordial para uma boa performance.

Que bom que a ginasta, Simone Biles, teve a coragem de expressar suas angustias em continuar competindo por não conseguir estar suficientemente segura.

 “Minha mente e corpo simplesmente estão fora de sincronia. Não acho que vocês entendem quão perigoso isso é nas superfícies de competições duras. Eu não preciso explicar porque coloquei a saúde em primeiro lugar”.


Os “twisties”, uma gíria em inglês usada pelas ginastas para explicar uma espécie de bloqueio mental ou perda da consciência do espaço e do movimento durante sua execução, é um fenômeno misterioso em que o corpo não coopera, o cérebro perde a noção de onde está no ar e a atleta só descobre onde está o chão quando seu corpo bate nele.

“Fiquei muito feliz por poder competir, independentemente do resultado. Fiz isso por mim e estou orgulhosa de mim mesma por ser capaz de competir mais uma vez”, disse, Biles. “Todos os dias eu tinha que ser avaliada clinicamente pelos médicos, tinha duas sessões com um psicólogo esportivo que me ajudou a me manter mais equilibrada.” Relatou após a conquista do bronze. 

Simone Biles não foi a primeira atleta a expressar questões relacionadas a sua saúde mental, recentemente a tenista, Naomi Osaka, também comentou sobre episódios depressivos nos últimos anos e sua ansiedade ao dar entrevistas após as competições. Além delas, a lenda, Michael Phelps, relatou comportamentos depressivos por muito tempo quando competia. Atletas da NBA e WNBA também alertaram a comunidade esportiva sobre questões emocionais e problemas psicológicos envolvendo jogadores de basquete em temporadas recentes.



A ginásta brasileira, Rebeca Andrade, falou sobre o posicionamento de sua colega:

É muito difícil, porque a forma como ela saiu não foi por uma coisa boa. As pessoas têm que entender que nós não somos um robô. Somos atletas e seres humanos. É um orgulho que ela tenha tomado essa atitude de ter pensado nela em primeiro lugar”.

Saúde Mental: o legado dos Jogos Olímpicos de Tóquio

Certamente o exemplo de Simone Biles irá inspirar outros atletas a olhar para sua própria saúde mental de outra maneira e com o devido respeito. O meio esportivo tem de levar em conta definitivamente essa questão. Sem negligenciar os aspectos psicológicos e emocionais de todas as pessoas envolvidas com o esporte, sejam atletas, treinadores ou membros de comissões técnicas.

Cartilha do Comitê Olímpico Internacional

A questão da saúde mental no esporte já estava no radar do Comitê Olímpico Internacional (COI). Tanto é que de maneira inédita essa instituição a poucos meses lançou uma cartilha sobre saúde mental no esporte, IOC MENTAL HEALTH IN ELITE ATHLETES TOOLTIT.

Tendo em vista inúmeros episódios de sofrimento emocional e psicológico vivenciados por atletas que ganhou a mídia na última década. Inclusive, casos de suicídios, infelizmente. O COI se mobilizou para promover essa causa.

Segue abaixo um vídeo do meu canal no youtube onde comento sobre a importância dessa cartilha para a comunidade esportiva.



Psicologia do Esporte fortalecida.


Atletas que subiram ao pódio no país comentaram em entrevistas a importância do trabalho psicológico desenvolvido por eles durante esse duro ciclo olímpico, entre eles, Rebeca Andrade, Bruno Fratus, Ana Marcela e Thiago Braz.

O trabalho da Psicologia do Esporte é um processo de médio a longo prazo, assim como é com a preparação física, técnica e tática. Para desenvolver habilidades psicológicas no esporte é necessário tempo, treino e respaldo de toda a equipe.

Um dos pilares fundamentais para um bom trabalho é o desenvolvimento da saúde mental. Não dá para obter uma boa performance esportiva sem estar equilibrado psicologicamente. Todos os seres humanos precisam estar em ordem com suas emoções e sentimentos. Um exemplo claro desse aspecto durante as competições olímpicas foi o caso do tenista, Novak Djokovic, seu desequilíbrio emocional pode ter influenciado seus resultados. Ele estava visivelmente mais irritadiço em suas partidas, provocando adversários desnecessariamente, principalmente após as derrotas, quebrando sua raquete. Comportamento muito inadequado de um atleta de seu nível, ganhador de tantos títulos e ídolo da modalidade. Fugindo totalmente aos valores olímpicos e ao fair-play.
 

Ativismo, mais um legado.

Outro legado importante desses Jogos Olímpicos foi com relação ao protagonismo dos atletas em suas lutas pessoais e causas sociais. Foi o ativismo político no maior palco do esporte mundial. Visibilidade maior para expor essas causas não existe.

Tivemos a participação inédita de atletas que se declaram LGBTQIA+ tornando essa competição como uma das mais diversas e representativas.

Laurel Hubbard foi a primeira atleta transgênero a participar de uma competição feminina nos Jogos Olímpicos na modalidade levantamento de peso, aos 43 anos. Chegando as finais das competições de sua categoria.

A atleta, Quinn, é a primeira atleta trans e não binária a conquistar uma medalha de ouro olímpica, pela seleção feminina de futebol canadense.

A atleta dos Estados Unidos, Raven Saunders, fez um protesto durante a cerimônia de pódio. A medalhista de prata do arremesso do peso ergueu os braços e os cruzou sob a cabeça em formato de X. O gesto representa “o cruzamento onde todas as pessoas oprimidas se encontram”, segundo relatou.

Outros atletas subiram ao pódio com nomes de entes queridos falecidos ou com fotos de seus familiares para homenageá-los.

No futebol, atletas femininas se ajoelharam antes dos jogos a favor do antirracismo. As atletas da Austrália entraram com a bandeira aborígene, protestando contra a dizimação dessa população em seu país.

As ginastas da Alemanha foram competir com uma roupa diferente dos tradicionais maiôs. Privilegiando o conforto ao invés da exposição de seus corpos na vestimenta. Fortalecendo o debate sobre a exposição do corpo feminino em detrimento da performance esportiva.

Gianmarco Tamberi da Itália e Mutaz Essa Barshim do Quatar selaram acordo com abraço após saltarem 2,37 metros no Estádio Olímpico de Tóquio. Mais um episódio marcante, não necessariamente envolvendo algum tipo de ativismo. Mas, de total exemplo de espírito olímpico, de valor esportivo. Podendo servir de modelo para uma sociedade intolerante e que venera a competição predatória. Por que não vencer juntos? Esse foi o recado dado.

O COI ainda tenta insistir que política e esporte não se misturam. Ameaçando punir certas manifestações. Esses Jogos Olímpicos implodiram essa falácia que persiste em existir.

Saúde Mental: o legado dos Jogos Olímpicos de Tóquio

Políticas públicas.

Falta ao esporte nacional se tornar uma política pública de Estado e não somente programas de governo. Falta o fomento e desenvolvimento do esporte em seus diferentes níveis. Só assim poderemos ter um dia uma nação olímpica. Sempre após alguma edição de Jogos Olímpicos, esse tema é retomado e poucas ações efetivas são realizadas.

“O DNA do Time Brasil expõe uma dura realidade que vem à tona a cada edição dos Jogos Olímpicos: dos 309 atletas brasileiros em Tóquio, 131 não têm patrocínio algum, 36 realizam permutas, 41 fazem vaquinhas para arrecadar dinheiro e 33 conciliam o esporte com outros empregos. Na delegação brasileira, 78 competidores sequer estão incluídos no Bolsa Atleta, que tem faixas de pagamento que vão de R$ 925 (Nacional) até R$ 5 a 15 mil (Bolsa Pódio).” (Matéria do G1).


O esporte deveria fazer parte de uma grande política de saúde pública para a população em geral. A partir daí, formar uma base robusta e massificada onde os talentos surgem e assim, servir ao alto rendimento. Funciona de forma similar nas grandes potencias esportivas e aqui poderia ser replicado a nossa maneira.



Referências:

 
https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2021/07/biles-domina-o-novo-movimento-de-uma-estrela-mostrar-vulnerabilidade.shtml


https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2021/08/estamos-desconstruindo-a-imagem-de-heroi-e-de-invuneravel-do-atleta-diz-psicologa-do-cob.shtml

https://ge.globo.com/olimpiadas/noticia/campeao-olimpico-sem-clube-falta-de-patrocinio-vaquinhas-o-cenario-dos-brasileiros-em-toquio.ghtml




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Abraços …

Até !!!

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