Tragédia no Flamengo

O que dizer das mortes precoces dos jovens atletas de futebol que estavam sob a tutela do Clube de Regatas Flamengo? Qualquer morte nessas circunstancias é uma tragédia. Quando envolve jovens, certamente, a comoção é muito maior e não deveria ser diferente. Afinal, aqueles jovens ainda estavam sonhando em se tornar o que a grande maioria dos garotos brasileiros desejam, um dia ser jogador de futebol, brilhar nos campos do brasil e do mundo, ganhar dinheiro e ajudar suas famílias a ascender socialmente. 

Houve negligência, omissão ou imprudência?  Dê quem? Do Clube? Da prefeitura? A sociedade e principalmente as famílias das vítimas esperam por respostas e desejam que se apure as responsabilidades com transparência e isenção. 

Gostaria de saber como pode um clube que foi multado 32 vezes (isso mesmo, 32 vezes) pela prefeitura por falta de alvará em seu centro de treinamento permanecer funcionando. Segundo, noticiado em vários veículos de comunicação, o ‘Ninho do Urubu’ não possuía certificado de aprovação pelo Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro e em 2017 foi ‘interditado’ pela prefeitura.  O Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (TRT/RJ) ressalta que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro já havia ajuizado ação civil pública, em março de 2015, alertando que as “precárias condições oferecidas pelo Clube de Regatas do Flamengo a seus atletas são inferiores até mesmo àquelas ofertadas aos adolescentes que cumprem medida socioeducativa de semiliberdade em unidades do Departamento Geral de Ações Educativas (Degase)”, o que revela o absurdo da situação. Ainda de acordo com a ação ajuizada, o Comissariado de Justiça da Infância e Juventude realizou reiteradas visitas ao Centro de Treinamento Ninho do Urubu, constatando sinais de irregularidades quanto à habitação, além de grande precariedade no que se refere aos colchões utilizados pelos adolescentes. O documento relatou, ainda, que vários adolescentes permaneceram no Centro de Treinamento sem autorização formal dos pais.

O artigo 45 da Lei Pelé fala que as entidades de prática desportiva são obrigadas a contratar seguro de vida e de acidentes pessoais, vinculado à atividade desportiva, para os atletas profissionais, com o objetivo de cobrir os riscos a que eles estão sujeitos. Será que essa obrigatoriedade se estende aos jovens atletas?
O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 5º,  prevê que nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, havendo punição na forma da lei para quem atentar, por ação ou omissão os seus direitos fundamentais.  O ECA também, proíbe qualquer jovem a ter contrato de trabalho com menos de 16 anos. Nos clubes grandes do futebol brasileiro muitos jovens atletas com menos de 16 anos possuem “contrato” (mesmo que disfarçado com outro nome), empresários, agentes, etc. Nesse sentido, os clubes estão á margem da lei?

Por aqui, a sociedade geralmente, só se comove a partir de grandes tragédias que repercutem na mídia. Portanto, espero que esse ocorrido no Flamengo, mobilize as autoridades e a opinião pública a fiscalizar os CTs e clubes de base ao redor do país, não só no futebol, mas principalmente, em outras modalidades que não têm a mesma influencia e espaço na mídia, com certeza, existe lugares que não podemos caracterizar como alojamentos descentes, sem a mínima condição para abrigar jovens ou qualquer pessoa. Muitos desses locais são insalubres ( Como mostrou a matéria sobre os alojamentos do complexo do ibirapuera ). Se exemplos como esse acontecem na cidade mais rica do país, certamente, temos outros locais semelhantes ou em piores condições Brasil à fora. Esse é o momento ideal para mobilizarmos a sociedade por mudanças profundas nesses aspectos.

Essa tragédia com os garotos do “Ninho do Urubu” nos faz lembrar que o esporte de base no país é menosprezado, inclusive, no futebol. No final do ano passado o governo Temer, cancelou do orçamento, as bolsas atletas para base em modalidades olímpicas, deixando centenas de jovens apreensivos quanto ao futuro em suas carreiras esportivas. Diminuiu os recursos para as confederações esportivas nesse ano, muitas delas, já cortaram o incentivo aos projetos sociais que fomentam a base. A matemática é simples, não existe futuro do esporte sem base.  

Outros aspectos que me fizeram refletir após a morte precoce desses garotos, foi qual é o tipo de sociedade que estamos legando para os cidadãos do futuro? Muitos políticos no ano passado foram eleitos (inclusive, o presidente da república) com plataformas contra os direitos humanos e a favor de flexibilizar o ECA para ‘punir’ menores infratores com a ilusão de que dessa maneira vai diminuir a violência. Essa tragédia, esfrega na cara desses hipócritas a realidade nua e crua. Sem esses direitos básicos, previstos em nossa constituição, como os familiares das vítimas poderão lutar por reparação?

Venho trabalhando com adolescentes e jovens atletas a praticamente 14 anos em diferentes modalidades esportivas. A grande maioria deles abre mão de muitas coisas, da convivência com família, com amigos, de lazer, de relacionamentos afetivos, alguns até abandonam os estudos, outros vão estudar em escolas mais fracas para poder conciliar com as demandas da rotina esportiva. Fui e sou, cúmplice de sonhos, de dores, de dúvidas, de alegrias e frustrações de muitos meninos e meninas jovens atletas. O quanto é saudável para menores de 16 anos, viverem longe de suas famílias para tentar um sonho? O quanto isso impacta no desenvolvimento emocional, físico, maturacional e psicológico desses adolescentes que saem de suas casas? Sei que é a realidade de qualquer modalidade esportiva no mundo, mas também sei, por experiencia, que isso pode contribuir para vulnerabilidades (depressão, ansiedade, estresse, abuso de substancias, transtornos alimentares, abuso sexual, entre outros). Não sou favorável a jovens deixar seus lares e o núcleo familiar antes dos 16 anos para tentar a carreira de atleta. Não é saudável e não tem sentido, algumas das vítimas do Ninho do Urubu moravam fora de casa desde os 11 anos. Creio que um outro caminho é possível com mais respeito ao desenvolvimento humano.Temos a obrigação de zelar pela infância e juventude.

O esporte é só reflexo de nossa sociedade. O incêndio no CT do Flamengo, só mostra o quanto a cartolagem e o poder público são cúmplices dessas mortes. Quem é responsabilizado pelas “tragédias” do nosso cotidiano? Sarmarco, Vale? Desmatamentos? As enchentes de todo verão que destrói casas e vidas? Quem é responsabilizado pelos 60 mil assassinatos por ano? Por 50 mil mortes no trânsito? Pelos feminicídios e violência homofóbica que aqui figura entre os índices mais altos do mundo? Alguma “autoridade” é responsabilizada por todas essas mazelas? Até quando iremos permitir, nos calar, fingir que não é conosco? Quando vamos nos civilizar?

Referencias:

https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,area-do-ct-do-flamengo-atingida-por-incendio-era-estacionamento,70002713343

https://www.trt1.jus.br/ultimas-noticias/-/asset_publisher/IpQvDk7pXBme/content/nota-de-pesar-mortes-no-ct-do-flamengo/21078

https://jornal.usp.br/artigos/veredas-de-um-fenomeno-chamado-esporte/

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Abraços…

Até !!!

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