Meditação e Esporte

Técnicas de meditação não são novidades no esporte de alto rendimento, porém, de alguns anos para cá vem se tornando a ‘coqueluche’ das práticas encobertas para turbinar o rendimento esportivo.

Particularmente creio que as técnicas de meditação podem ser agregadas ao Treino Mental e de atletas na rotina de treinamentos. Considero, treino mental, como algo mais amplo e mais complexo, o foco desse texto será mais voltado a prática sistemática de meditação ‘mindfulness’. Deixarei para um post futuro (quem sabe) refletir sobre treinamento mental e  outras práticas encobertas disseminadas na Psicologia do Esporte.

Existe uma ampla gama de pesquisas em saúde, neurociências, psicologia, medicina, educação e outras disciplinas correlacionando os ganhos dos praticantes de meditação para a qualidade de vida, redução de estresse e ansiedade, aumento da imunidade, melhora da aprendizagem e nível de concentração entre outros aspectos. Esses conhecimentos também foram influenciam as Ciências do Esporte com mais enfase a partir dos anos 90.

“Muito embora atualmente a meditação seja ensinada e praticada separadamente do yôga, especialmente as meditações budistas, é importante lembrar que esse conjunto de diferentes técnicas contemplativas nasceu a partir da prática do yoga e sempre fez parte deste. Na verdade, a meditação é o pináculo do yôga e a técnica mais importante de todas. As técnicas meditativas originaram-se na índia há mais de 4 mil anos e sempre existiram de alguma forma em todas as maiores religiões e organizações seculares.

Existe diversos tipos de meditação, mas, em pesquisas médicas, duas classes são mais estudadas: a concentração e a chamada meditação mindfulness. Mindfulness, um nome para o qual não há tradução fiel em português (alguns autores usam a expressão atenção plena), é baseada em técnicas budistas e define-se como uma forma especifica de atenção – concentração no momento atual, de modo intencional e sem julgamento. Significa estar plenamente em contato com a vivência do momento, sem estar absorvido por ela e sem qualquer crítica ou juízo de valor.

Prestar atenção parece simples, pode-se pensar que estamos sempre prestando atenção, mas, na verdade, damos pouquíssima atenção ao que está acontecendo em nossa experiência presente. A mente humana está constantemente alternando entre o passado e o futuro, e, como um pêndulo, passa pelo momento presente rapidamente, apenas o suficiente para garantir nossa sobrevivência. Isso não quer dizer que tenhamos de remover toda a nossa sensibilidade à variedade completa de experiência e viver em uma espécie de eterno presente. Mas, para que possamos ir além dos hábitos enraizados de nossa mente, para que possamos nos libertar de algumas distorções e confusões as quais estamos constantemente submetidos, é preciso treinar nossa mente para observarmos atenta e deliberadamente os processos pelos quais construímos a experiência do passado e do futuro no momento presente. E isso é basicamente a prática de Mindfulness (Vorpic e Rangé, pg. 26-27 – 2013).”

Muitos atletas já compartilharam seu gosto por essas práticas milenares, Roberto Baggio, Michael Phelps, Novak Djokovic, Kobe Bryant, Yelena Ysinbaieva, o treinador Phill Jackson (fez o Chigago Bulls de Jordan, Pipen e companhia) meditar coletivamente. No Brasil a seleção de Handball masculina pratica meditação como um dos pilares da preparação psicológica.

“Eu me dei conta de quanta energia negativa enviava para o meu cérebro. Assim que consegui focar em retroceder um pouco e analisar meus pensamentos objetivamente, eu vi claramente: uma quantidade maciça de emoções negativas. Insegurança, raiva, preocupações com a vida e a minha família. Medo de não ser bom o bastante. Que talvez meu treinamento estivesse errado. Que minha estratégia para a próxima partida estava errada. Que eu estava perdendo tempo, desperdiçando potencial (relato do tenista  Novak Djokovic).”

“Às vezes a gente foca no tático, no técnico, mas esquece do lado humano, que é o que vai decidir o esporte. Se o lado humano estiver funcionando, se os atletas conseguirem uma concentração, vai ser bem melhor ( Thiagus Petrus, capitão da seleção brasileira de Handball).”

George Mumford, psicólogo do esporte americano, talvez seja o um dos grandes percursores das técnicas de meditação aplicadas ao contexto esportivo, trabalhou com grandes astros da NBA sempre em parceria com outro grande nome do basquete, o treinador, Phill Jackson, um entusiasta da meditação como prática para a vida como para fortalecer mentalmente seus atletas. Em seu livro, Onze Anéis, ele nos mostrou como chegou lá:

“Na pré-temporada convidei o psicólogo esportivo e professor de meditação George Mumford para dar um pequeno workshop para os jogadores no centro de treinamento sobre como lidar com o estresse causado pelo sucesso (…) O objetivo era ajudar os jogadores a fazer uma mudança similar. Eles precisavam assumir um papel em particular que encaixasse com seus pontos fortes. George então se concentrou em simplesmente fazê-lo prestar atenção e ajustar a conduta segundo os objetivos da equipe. Mas passado algum tempo chegou à conclusão de que o primeiro passo era fazer os jogadores entenderem que o que aprendiam a fazer na quadra também aprimorava o crescimento individual. De acordo com George eles precisavam entender que, ‘no processo de se tornar um nós, também cultivavam o próprio eu’.
(…) Os ensinamentos a seguir poderiam ajudar a explicar o que se deve tentar fazer como um time de basquete:
1. VISÃO CORRETA: olhar para o jogo como um todo e trabalhar em conjunto como uma equipe, como os cinco dedos da mão.
2. PENSAMENTO CORRETO: se ver a si mesmo como parte de um sistema, e não como o único integrante de uma banda. Isso também implica entrar em cada jogo com a intenção de se envolver intimamente com o que ocorre com toda a equipe, simplesmente porque se está estreitamente ligado a todos que a integram.
3. FALA CORRETA: aqui existem dois componentes. O primeiro diz respeito a falar positivamente para si mesmo e não se perder sem rumo nas falas de revide durante os jogos (“Odeio esse juiz”; “Vou dar um troco naquele safado”). O segundo diz respeito a controlar o que se fala quando se está conversando com os outros, especialmente os companheiros de equipe, e estar concentrado para sempre dar um retorno positivo a eles.
4. AÇÃO CORRETA: fazer movimentos apropriados ao que acontece na quadra, sem exibições repetidas e sem ações que perturbem a harmonia da equipe.
5. ESTILO DE VIDA CORRETO: respeito pelo trabalho e empreendê-lo a favor da comunidade e não apenas para lustrar o próprio ego. Seja humilde. Lembre-se de que está ganhando uma quantidade absurda de dinheiro para fazer algo realmente simples. E divertido.
6. ESFORÇO CORRETO: implica ser solidário e empregar a quantidade suficiente de energia para fazer o trabalho. Não há substitutos para raça, se você não tem raça, vai para o banco de reservas.
7. ATENÇÃO PLENA CORRETA: chegar a todos os jogos com uma compreensão clara do plano ofensivo e do que se espera do adversário. Implica ainda jogar com precisão, fazer os movimentos certos nos momentos certos, e manter a consciência desperta durante o jogo todo, quer se esteja na quadra ou no banco.
8. CONCENTRAÇÃO CORRETA: concentrar-se apenas no que se faz a cada momento, sem se obcecar com os erros cometidos anteriormente ou com o que poderá acontecer de ruim”.

As instruções de como meditar são muito simples ( adaptado de Vorpic e Rangé, 2013): 

1 – Sente-se com a coluna ereta, os ombros relaxados e o queixo esticado, ‘como se apoiando o céu com a cabeça’. Feche os olhos.

2 – Acompanhe a respiração com a mente enquanto é movida para dentro e para fora como uma porta de vaivém. Leve sua consciência para as mudanças nos padrões das sensações físicas na barriga, à medida que o ar entra e sai, da mesma maneira de quando você estava deitada. Não há necessidade de tentar controlar a respiração, simplesmente deixe seu corpo respire sozinho.

3- Não tente deter o pensamento. Se algum pensamento irromper, deixe-o fluir e depois volte a prestar atenção na respiração. A ideia não é tentar controlar a mente, e sim deixar que os pensamentos apareçam naturalmente e repetidas vezes. Não se preocupe , é perfeitamente normal. Essa é a natureza da mente, isso é exatamente o que ela faz, não é nenhum erro ou fracasso. A divagação da mente ocorrera algumas vezes. A cada vez, perceba onde ela esteve e traga sua atenção de volta a respiração. Com a prática os pensamentos passam a flutuar como nuvens que se dissipam e perdem o poder de dominar a consciência.

4 – Se possível pratique todo dia durante apenas entre 10 e 15 minutos.

Cada vez mais a ciência moderna tem constatado o que a sabedoria milenar já nos legou para o desenvolvimento humano. Precisamos estimular que praticas e técnicas como a meditação e similares sejam incorporadas nas rotinas esportivas e possam servir a nós psicólogos do esporte e principalmente, ao fortalecimento emocional dos atletas em suas rotinas de trabalho e em outras esferas de suas vidas.

 

Referencias:

Vorkapic, C.F. Rangé, B. 2013. Mindfulness, Meditação, Yoga e Técnicas Contemplativas: um guia de aplicações e de prática pessoal para profissionais de saúde. Editora Cognitiva. Rio de Janeiro – RJ.

Jackson, P. Delehanty, H. 2014. Onze Anéis: a alma do sucesso. Editora Rocco.

Menos lesões e mais desempenho: como o mindfulness ajuda atletas de alto nível

http://www.huffingtonpost.com/michael-sandler-and-jessica-lee/michael-jordans-mindfulne_b_7523748.html

***
Abraços …

Até !!!

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2 ideias sobre “Meditação e Esporte

  1. Maicon Oliveira

    Essa prática funciona mesmo! Quando eu competia em uma equipe de futebol, praticava antes dos treinamentos e antes dos jogos. Muito bom, excelente matéria!

    Responder

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