O medo no esporte

esqueleto - munch

O medo, assim como outras emoções primárias, está inscrito no código genético de muitos seres vivos é um legado evolutivo vital. Sua função é “avisar” o organismo dos perigos eminentes. Em geral, o medo é benéfico e saudável, somente quando é excessivo (em casos patológicos de pânico ou fobias) pode ser tornar um transtorno psicológico.  Por outro lado, uma pessoa totalmente destemida provavelmente não teria vida longa: atravessaria uma avenida movimentada no sinal vermelho ou não hesitaria em enfrentar um leão, por exemplo.

O medo é um dos sentimentos mais presentes nos esportes, dependendo da modalidade ele é um elemento essencial. Esse é um tema extenso, mas ainda pouco investigado na psicologia do esporte. Todo componente emocional, sentimentos e sensações psicológicas repercute fisiologicamente não só no cérebro, mas também no corpo como um todo.

Sob o efeito do medo, aumentam a atenção e a velocidade de reação. As batidas do coração aceleram, a pressão sanguínea sobe, os açúcares inundam o sangue e aumentam as secreções da glândula suprarrenal e da parte anterior da hipófise. Esse terremoto psicofísico prepara o corpo para lutar, fugir, imobilizar-se ou fingir não temer.

O medo é algo inerente a todos os seres humanos, mas mesmo assim, geralmente as pessoas não admitem que o possua. Talvez, por que vivemos numa sociedade em que expressar certas emoções ou sentimentos é sinal de fraqueza. No mundo masculino e machista isso é mais exacerbado ainda. Os meninos desde muito pequenos são bombardeados com expressões: “homem não chora”, “demonstrar sentimento é coisa para mulher ou para os gays”. No contexto esportivo, dificilmente um atleta confirma que esteve amedrontado em determinado momento de uma competição, mesmo após a situação ter sido positiva. Controlar as emoções no esporte dependendo da circunstancia pode separar o vitorioso do último colocado.

Para Hackfort & Schwenkmezger (1980):

“O medo se revela, ou é expresso, de diversas formas rosto pálido, olhar petrificado, dilatação da pupila, inquietação motora generalizada, tremor das mãos, postura corporal enrijecida, braços tensos, suor, fala rápida, tremor da voz, erros freqüentes na fala, entre outros. Essas diferentes expressões do medo podem ser agrupadas, diferenciando fatores que podem ser percebidos visual acusticamente. No medo, normalmente, a altura do som é diminuída, a velocidade é aumentada e o ritmo é inconstante. Nos fatores visuais, pode-se diferenciar expressões  motoras finas e grosseiras, além de aspectos da mímica facial, dos gestos das extremidades e do corpo todo. A interpretação desses fatores é complicada já que eles são influenciados por fatores culturais, educacionais e sociais, entre outros, que têm a ver com a comunicação não verbal.”

Ao ler o trecho descrito acima, me lembrei de Roberto Baggio na final da Copa do Mundo de Futebol em 1994, ao caminhar para bater o pênalti contra o Brasil. O seu semblante era característico de quem estava apavorado. Não era para menos, diante das circunstancias em que se encontrava. O senso comum diz que ele “pipocou, não estava preparado, amarelou”. Na verdade ele sucumbiu aos seus sentimentos e não soube controlar seu medo, sua ansiedade e outras sensações que estavam ocorrendo naqueles instantes. Porém, quatro anos depois lá estava ele numa situação parecida, em outra Copa do Mundo, sendo o craque da equipe e diante da marca do pênalti. Não era a final, mas provavelmente sua responsabilidade era ainda maior, ele converteu e marcou o gol para a Itália contra Chile. Baggio foi um jogador fabuloso, mas muitos se lembram dele mais pelo erro do que pelos acertos.  Às vezes, esquecemos que o esporte é feito por gente, de carne, osso, músculos e emoções, portanto, imprevisível.

Roberto Baggio – keep walking

O medo pode ser considerado uma das emoções mais negativas que um atleta pode experimentar, destruindo em alguns casos, a harmonia psíquica do indivíduo. O medo aumenta a produção de hormônios do estresse (adrenalina e cortisol). Essas substâncias causam uma série de reações fisiológicas imediatas, como tensionamento muscular, batimentos cardíacos e respiração acelerados e dilatação das pupilas e consequentemente em frações de segundos podem fazer com que atletas percam rendimento. Pesquisas indicam que os atletas sentem diferentes tipos de medo: o medo de errar durante uma competição (frequente em ginastas e principalmente em competições de duração rápida); o medo de arriscar (por exemplo, uma jogada diferente e der errado); o medo de passar vergonha socialmente (se tornar motivo de piada no grupo e principalmente na mídia); o medo de se expor (algumas pessoas sentem pressão ao jogar fora de casa, ou na presença de familiares e amigos íntimos, também quando a competição será televisionada para milhões de expectadores). A autoconfiança ajuda a controlar o medo, quanto maior se apresenta a autoconfiança de um atleta, menor é a sua ansiedade, insegurança e hostilidade, além de maior decisão, capacidade de arriscar e de autocontrole. Os grandes atletas controlam o seu medo, todos sentem, é inevitável. Após um grande feito é comum os atletas relatarem, além das glorias, o sentimento de alívio, de dever cumprido, da superação dos próprios limites.

Falamos um pouco até agora do medo que paralisa, e o medo que motiva? Presente nos esportes extremos, aqueles que os atletas ultrapassam as capacidades físicas e psicológicas. Exemplo: ultramatonistas, surfistas de ondas gigantes, wing walking (mover-se sobre as assas de um avião durante um vôo), heli-skiing (um helicóptero leva o esquiador até o topo inacessível de uma montanha. Sem pista, sem sinalização e sem conhecer o terreno, ele desce, esquiando), base jump, paraquedismo entre outros.

Penso que esses atletas podem ser “viciados em adrenalina, em sensações extremas”, ou seja, em realizar feitos sobre-humanos. Para os desavisados eles são “loucos, pessoas ensandecidas”, realmente se pensarmos racionalmente a linha é tênue entre o que separa a coragem do risco de morte aos olhos dos leigos. Mas, poucos sabem que esses atletas são muito disciplinados, possuem um alto grau de autocontrole, são extremamente detalhistas com a logística, respeitam a natureza mesmo diante de desafiá-la. São experts não só na modalidade que praticam, mas também em tudo o que está relacionado a ela, todas as nuances que podem interferir de alguma maneira no desempenho (condições meteriológicas, segurança, equipamentos modernos que podem ser vantajosos, etc.). Atletas dessas modalidades são pessoas muito corajosas e estimuladas a grandes desafios. A coragem não é ausência de medo, mas sim o impulso de vencê-lo depois de senti-lo, respeitá-lo acima de tudo. É o que eles precisam para permanecer no controle da situação.

Segundo Seligman (1975):

“a imprevisibilidade de acontecimentos futuros tem um papel importante no surgimento do medo. A incerteza relacionada a uma situação de rendimento pode provocar medo. No esporte de competição, fica claro que, quanto mais bem estruturada estiver a situação de competição para o atleta, menor a possibilidade de aparecimento de reações de medo e estresse. Isto se obtém, fornecendo informações suficientes sobre os adversários, sobre a programação do evento, sobre a tarefa a ser desempenhada e sobre o que se deve esperar realisticamente da própria atuação. Para que estas informações sejam otimizadas, é necessário excluir excesso de informações e acentuar informações incompatíveis com o medo.”

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, comentou sobre uma entrevista com o surfista de ondas gigantes, Carlos Burle:

“Primeiro vêm os anos de preparo. Decidir surfar a onda gigante apesar do medo que ela inspira depende de uma sensação de controle da situação que só se conquista à força de muita técnica e prática.

Segundo, é preciso equilíbrio, tanto em cima da prancha quanto dentro da cabeça. Sem a capacidade de não se deixar dominar pela emoção, não há como vencer o medo e partir para o ataque.

Aqui a neurociência dá o seu pitaco: um estudo recente mostrou que a coragem não é a ausência do medo, e sim o controle que permite a ação apesar do medo. Isso é função de uma parte do córtex na parte da frente da cabeça, o córtex subgenual, que suprime a influência do medo sem reduzir sua percepção.

Dá para imaginar como os anos de treino, levando à sensação de capacidade e controle, ajudam a aumentar a coragem.”

2 elementos – ar e água

Meu profundo respeito e admiração a essas pessoas que dão assas a sua liberdade (às vezes literalmente), buscam ultrapassar os próprios limites e fazem com que possamos aprender e nos surpreender cada vez mais como a capacidade humana. Por isso também, o esporte é um fenômeno tão fascinante.

Referencias: 

Machado, A. A. Psicologia do Esporte: da educação física escolar ao treinamento esportivo. São Paulo: Guanabara Koogan, 2006.

Roffé, M. Psicología del Jugador de Fútbol. Buenos Aires: Lugar Editorial S. A., 1999.

http://www.rc.unesp.br/ib/efisica/motriz/08n2/Brochado.pdf – O Medo no Esporte, Monica M.V. Brochado

Tito Paes de Barros – Sem medo de ter medo: um guia prático para ajudar as pessoas com pânico, fobias, obsessões, compulsões e estresse – Ed. Casa do Psicólogo.

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Abraços

Até!!!

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